A promessa da Inteligência Artificial (IA) avança a passos largos no mundo corporativo, mas uma barreira significativa tem se mostrado um obstáculo intransponível para muitas organizações: a infraestrutura legada. Um estudo global da GFT Technologies, conduzido pela Wakefield Research com 945 CIOs e CTOs em 19 países, revela que 84% dos líderes de tecnologia já foram forçados a cancelar projetos ou pilotos de IA devido às limitações de seus sistemas obsoletos. Essa realidade sublinha um paradoxo: enquanto o interesse e o investimento em IA crescem, a base tecnológica sobre a qual essas iniciativas se apoiam frequentemente não acompanha o ritmo, minando o potencial de inovação e gerando incertezas sobre o retorno do investimento (ROI).

A Infraestrutura Legada como Freio para a IA

O relatório da GFT detalha que sistemas legados não são apenas um entrave para o progresso da IA, mas também uma fonte de sérios riscos de segurança. A percepção entre os líderes de tecnologia é clara: 93% acreditam que não modernizar a infraestrutura antes de implementar IA em sistemas antigos inevitavelmente desencadeará uma crise de segurança em toda a empresa. Essa constatação é particularmente relevante para o ecossistema brasileiro, onde a modernização de infraestruturas de TI muitas vezes caminha a passos mais lentos em comparação com mercados mais desenvolvidos. A dependência de sistemas herdados, que podem ter sido projetados para propósitos muito diferentes e com requisitos de segurança e processamento inferiores, cria um gargalo que impede a escalabilidade e a eficácia das soluções de IA.

Ceticismo Crescente e a Busca por Valor Sustentável

Além dos desafios de infraestrutura, o estudo aponta para um crescente ceticismo em relação ao retorno financeiro da IA. Oito em cada dez (89%) líderes de tecnologia temem que o investimento global em IA esteja crescendo mais rápido do que o valor de negócio que ela pode, de fato, gerar, alimentando o espectro de uma possível "bolha da IA". Essa preocupação se estende à forma como as empresas comunicam as mudanças na força de trabalho. Uma expressiva maioria (91%) acredita que algumas companhias de capital aberto usam a IA como justificativa para cortes e reestruturações que, na verdade, visam inflar o preço de suas ações. Essa narrativa pode corroer a confiança interna e externa, dificultando a aceitação e a implementação de projetos de IA.

Geopolítica, Fornecedores e o Risco Pessoal dos Líderes

A incerteza geopolítica também está redefinindo as estratégias de fornecedores de IA. Interrupções recentes no acesso a modelos de IA levaram 79% dos entrevistados a repensar como obtêm suas capacidades de IA, com 42% inclinados a construir infraestrutura internamente em vez de depender de terceiros. Essa tendência, impulsionada por tensões globais e potenciais restrições governamentais, reforça a necessidade de as empresas terem maior controle sobre suas plataformas de IA. Paralelamente, os líderes de tecnologia enfrentam um risco pessoal cada vez maior. Oitenta e nove por cento temem que uma decisão equivocada sobre a força de trabalho durante a expansão da IA possa colocar seus próprios empregos em risco, evidenciando a pressão e a responsabilidade sobre seus ombros.

Perguntas em Aberto para o Cenário Brasileiro

Diante desse cenário global, surgem questões cruciais para o mercado brasileiro. A infraestrutura legada, um desafio conhecido em muitas empresas locais, representa um obstáculo ainda maior para a adoção de IA? Como as empresas brasileiras estão equilibrando o desejo de inovar com a necessidade de modernizar seus sistemas de TI? A dependência de fornecedores globais de IA, especialmente aqueles sujeitos a tensões geopolíticas, é uma preocupação real para as operações no Brasil? E, finalmente, os líderes de tecnologia no país se sentem tão expostos quanto seus pares globais às consequências de falhas na implementação de IA?

As respostas a essas perguntas moldarão o futuro da Inteligência Artificial nas corporações brasileiras. A transição para uma infraestrutura mais robusta e segura não é apenas um passo técnico, mas uma decisão estratégica fundamental para garantir que o investimento em IA se traduza em valor de negócio sustentável e para mitigar os riscos inerentes a essa revolução tecnológica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside