A espanhola Iberdrola, uma força global em energia e controladora da brasileira Neoenergia, atingiu um marco crucial em seu mais ambicioso projeto de energia eólica offshore. A companhia concluiu a instalação das 95 fundações para o parque East Anglia 3, no Reino Unido, um empreendimento de £4 bilhões (cerca de R$ 28 bilhões) e 1.400 megawatts (MW) de capacidade, desenvolvido em parceria com a Masdar, de Abu Dhabi.

O projeto, que deve entrar em operação plena ainda este ano, é mais do que uma notícia setorial europeia. Para o Brasil, onde a Iberdrola tem presença massiva através da Neoenergia e o potencial para eólica offshore é imenso, East Anglia 3 funciona como um estudo de caso em tempo real. Ele demonstra a escala de capital, a complexidade de engenharia e a articulação de cadeia de suprimentos necessárias para transformar vento em energia em alto-mar.

A engenharia de uma nova era

O termo "fundação" subestima a magnitude da obra. Cada uma das 95 estruturas de aço pesa até 1.800 toneladas e se estende por até 84 metros de altura, fincadas com precisão no leito marinho. Segundo a Forbes España, que reportou o avanço, são as maiores já instaladas na Europa a partir de uma embarcação autoelevadora. A operação exigiu mais de 200 mil toneladas de aço e uma logística naval de altíssima complexidade.

A construção não é apenas um feito de engenharia, mas um motor econômico. Cerca de £2 bilhões foram investidos na cadeia de suprimentos britânica, sustentando 2.300 empregos durante a obra. É um argumento poderoso que ressoa no Brasil, onde o debate sobre a transição energética frequentemente se cruza com a necessidade de reindustrialização e geração de empregos qualificados.

O eixo Espanha-Abu Dhabi e a lição para o Brasil

A aliança entre a Iberdrola e a Masdar, empresa de energia renovável dos Emirados Árabes Unidos, sinaliza a nova geopolítica da energia. O capital para a transição verde é global e busca mercados com estabilidade regulatória e projetos bem estruturados, como o Reino Unido. A parceria mostra que incumbentes europeus e novos players de capital do Golfo podem se unir para bancar a infraestrutura do futuro.

Para o Brasil, a lição é clara. A Neoenergia já estuda projetos de eólica offshore na costa do país. A capacidade técnica e financeira de sua controladora não está em dúvida. O desafio brasileiro não é a falta de vento ou de potenciais investidores, mas a criação das "fundações" regulatórias e de infraestrutura portuária que possam atrair e viabilizar investimentos na casa das dezenas de bilhões de reais.

Com a estrutura submarina pronta, as turbinas começam agora a ser instaladas no Mar do Norte. O projeto passa da fase de força bruta para a de operação. Para o ecossistema brasileiro, o momento é de observação atenta. A tecnologia e o capital existem e estão à porta. A questão é se o país conseguirá construir um ambiente de negócios robusto o suficiente para ancorar seus próprios gigantes eólicos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España