A temporada de balanços do primeiro trimestre de 2026 desenhou um cenário de contrastes para os grandes bancos brasileiros, evidenciando que a gestão de risco e a exposição setorial têm determinado a performance de cada instituição. Segundo reportagem do InfoMoney, a rentabilidade — medida pelo retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) — passou a ser o principal divisor de águas entre as teses de investimento no setor.

O movimento sugere que a era de ganhos homogêneos na banca ficou para trás. Com a política monetária pressionando margens e a inadimplência no agronegócio afetando resultados de instituições mais expostas, o investidor precisa ir além do apelo de dividendos e avaliar a sustentabilidade da geração de lucro por trás de cada pagamento.

A solidez do Itaú frente ao mercado

O Itaú consolidou-se como destaque positivo do período, reportando lucro líquido recorrente de R$ 12,3 bilhões, um avanço de 10,4% na comparação anual. Com um ROE de 26,4% na operação brasileira, a instituição é vista pelo mercado como um “relógio suíço defensivo”, conforme análise da Anvex Capital citada na cobertura. A consistência na execução e a disciplina de risco sustentam a preferência do papel em carteiras que priorizam qualidade e previsibilidade de proventos.

Para especialistas ouvidos pelo InfoMoney, o banco se mantém como porto seguro: sua estrutura operacional tem mostrado capacidade de absorver choques macroeconômicos com mais resiliência que os pares, o que sustenta recomendações de compra focadas em preservação de capital e recorrência de resultados.

Bradesco e o potencial de valorização

Em trajetória distinta, o Bradesco entregou o nono trimestre consecutivo de expansão nos lucros, atingindo R$ 6,8 bilhões. A leitura do mercado é de que o processo de reestruturação vem surtindo efeito e elevando a credibilidade da instituição. O papel é visto como principal aposta para ganho de capital, dado que negocia próximo ao valor patrimonial.

Analistas apontam que a relação risco-retorno do Bradesco é a mais assimétrica entre os grandes. Embora a tese exija paciência e um horizonte mais longo, a normalização gradual da rentabilidade esperada para os próximos anos embute potencial de valorização menos presente em bancos já maduros ou mais pressionados por fatores externos.

O impacto da crise no agronegócio

O Banco do Brasil, por outro lado, sentiu diretamente a deterioração no setor rural: a inadimplência na carteira de agronegócio saltou de 2,76% para 6,22%. O custo de crédito chegou a R$ 18,9 bilhões no trimestre, levando o lucro a uma queda superior a 50% na base anual, segundo o InfoMoney. A revisão para baixo do guidance de 2026 minou a confiança de parte dos analistas, que recomendam cautela com o ativo dada a menor visibilidade de curto prazo.

O Santander também apresentou números aquém do ritmo desejado pelo mercado, refletindo maior sensibilidade ao ciclo de juros altos. Parte dos analistas vê desafios de natureza mais estrutural para crescer a carteira sem comprometer a qualidade dos ativos, o que mantém a recomendação mais seletiva até que haja sinais consistentes de melhora.

Perspectivas para o investidor

O cenário exige que o investidor selecione ativos menos pelo yield nominal e mais pela saúde da geração de caixa. Embora Itaú, Bradesco e Santander projetem dividendos em patamares próximos, a origem e a sustentabilidade desses pagamentos variam entre solidez operacional, recuperação em curso e maior pressão de crédito.

A saída de capital estrangeiro da Bolsa adiciona volatilidade ao curto prazo, reforçando o foco em fundamentos. A questão central é se o setor conseguirá sustentar o nível de proventos caso a inadimplência se espalhe para outros segmentos além do agro.

Nas próximas semanas, o mercado deve recalibrar projeções à luz de indicadores de qualidade de carteira e do comportamento da Selic. A diversificação entre instituições com perfis de risco distintos segue como a melhor defesa para mitigar oscilações típicas deste estágio do ciclo de crédito.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney — Onde Investir