A antiga tensão entre lobos e criadores de gado, um conflito que ecoa por séculos em paisagens rurais, ganha um novo capítulo na Sierra de la Culebra, na Espanha. Ali, um projeto inovador, capitaneado pelo naturalista Antonio Herrero e com o suporte da ILUNION Hotels, busca não apenas entender, mas também mitigar os choques entre a presença do lobo ibérico e a subsistência dos criadores. A iniciativa, que se assemilha a um laboratório a céu aberto, tem como premissa fundamental que a coexistência é possível mediante uma gestão cuidadosa e baseada em dados concretos.
Antonio Herrero, com uma vivência profunda na região e um passado como militar e paraquedista, traz uma perspectiva conciliadora. "Se queres proteger o lobo, tens de proteger as pessoas que o sofrem e convivem com ele", afirma. Essa declaração de princípios guia um projeto que se aprofunda nas causas dos ataques a rebanhos, analisando as manadas, as propriedades e as circunstâncias que levam a esses incidentes. A meta é clara: demonstrar que, com um manejo ganadeiro eficiente, os ataques podem ser reduzidos, provando que a convivência harmoniosa não é uma utopia, mas sim um objetivo alcançável.
Um Laboratório de Campo para a Coexistência
O projeto se estrutura em três fases distintas. No primeiro ano, o foco é a observação e identificação: entender o comportamento das manadas, os padrões de ataque e as circunstâncias ambientais e de manejo que influenciam esses eventos. O segundo ano é dedicado à aplicação das medidas propostas, seguidas de uma observação rigorosa para avaliar sua eficácia. Finalmente, o terceiro ano consolida a análise dos dados coletados, com o objetivo de quantificar a diminuição dos ataques. Essa abordagem metódica permite comparar explorações que sofrem ataques com aquelas que, sob condições semelhantes, conseguem evitá-los, gerando um valioso conhecimento prático. A Junta de Castilla y León, órgão governamental da região, apoia a iniciativa, recebendo relatórios semestrais detalhados sobre o progresso e as conclusões preliminares.
As observações iniciais já apontam para fatores cruciais. Uma criadora que sofreu múltiplos ataques, por exemplo, tem pouca presença no campo e carece de cães de guarda ou cercas robustas. Em contraste, um vizinho, dentro do mesmo território de uma manada, não registrou incidentes, graças à presença constante de onze mastins e três pastores que se revezam na vigilância. A gestão ativa do rebanho e a presença humana dissuadem os predadores. Outro criador, apesar de investir em cercas e outras medidas, continua a sofrer ataques por estar localizado em uma área de reprodução de lobos, evidenciando a complexidade dos fatores envolvidos e a necessidade de estratégias adaptadas a cada contexto.
O Impacto de Incêndios e a Gestão de Subsídios
Um fator ambiental cada vez mais relevante e que o projeto de Herrero também investiga é o impacto dos incêndios florestais no comportamento dos lobos e, consequentemente, nos ataques ao gado. Após o grande incêndio de 2022 na Sierra de la Culebra, a paisagem mudou drasticamente. Áreas antes cobertas por pinhais, que ofereciam cobertura e surpresa para a caça de presas silvestres como veados, tornaram-se terrenos abertos. Essa alteração dificulta a caça natural para os lobos, que podem então encontrar nos bezerros do gado doméstico uma fonte de alimento mais acessível. Essa dinâmica, onde a escassez de presas silvestres leva a uma maior predação sobre o gado, é uma preocupação crescente e um ponto de atenção para o projeto.
Paralelamente à análise de campo, o projeto também visa aprimorar o sistema de subsídios e indenizações por ataques de lobo. Herrero critica a situação em que alguns criadores deixam o gado desassistido, contando com o pagamento posterior pelas perdas, enquanto outros, mais diligentes, investem em medidas preventivas. Ele defende que os subsídios, essenciais para a manutenção do mundo rural, deveriam ser condicionados à adoção de práticas de manejo adequadas, especialmente em áreas de alta incidência de lobos. A ideia é que a Administração Pública, ao conceder ajudas, também exija e acompanhe a implementação de medidas preventivas, em vez de apenas indenizar os prejuízos. Isso não apenas otimizaria o uso dos recursos públicos, mas também incentivaria uma convivência mais responsável e sustentável.
Implicações e Extrapolação do Modelo
A iniciativa de Herrero, embora focada na Sierra de la Culebra, possui um potencial de extrapolação significativo para outras regiões da Espanha com ecossistemas e práticas de pecuária semelhantes, como Astúrias e Galícia. A metodologia de estudo de campo, a análise de dados e a proposição de medidas adaptadas às especificidades locais são replicáveis. Contudo, Herrero ressalta que cada território apresenta desafios únicos. Em grandes propriedades fechadas, como as encontradas na Sierra de Guadarrama, onde milhares de vacas pastam em extensas áreas, a dinâmica de predação e as estratégias de manejo diferem das pequenas explorações extensivas da Culebra. A adaptação das soluções a esses diferentes cenários é fundamental para o sucesso da iniciativa em larga escala.
O projeto também toca em um ponto sensível: a percepção pública e política do lobo. Herrero lamenta que a narrativa muitas vezes se limite à visão simplista de "Cinderela", onde o lobo é o vilão. Ele defende que a compreensão real exige a escuta e a consideração de todos os pontos de vista, incluindo a dor e as dificuldades enfrentadas pelos criadores. A iniciativa busca, portanto, não apenas oferecer soluções práticas, mas também promover um diálogo mais informado e equilibrado sobre a coexistência entre o homem e a vida selvagem, reconhecendo a complexidade inerente a essa relação milenar.
As conclusões deste laboratório de campo na Espanha podem oferecer um modelo de como gerenciar conflitos entre a vida selvagem e as atividades humanas, um desafio cada vez mais premente em um mundo onde a expansão urbana e as mudanças climáticas redefinem os habitats. A busca por uma coexistência sustentável, ancorada em ciência aplicada e na colaboração entre diferentes partes interessadas, é um caminho promissor para a preservação tanto da biodiversidade quanto das comunidades rurais.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · El Confidencial — Tech





