As empresas listadas no índice Ibex 35, que reúne as maiores companhias da Espanha, reportaram um lucro global de 67,3 bilhões de euros em 2024, um crescimento de 21,5% em comparação ao exercício anterior. Apesar do desempenho financeiro robusto, a contribuição fiscal dessas corporações dentro do território espanhol seguiu trajetória oposta, registrando uma queda de 6,7% e totalizando 6,4 bilhões de euros, conforme dados do relatório 'Evolução de indicadores de bom governo', elaborado pela Fundação 1º de Mayo em parceria com o sindicato CCOO.

A leitura central do levantamento é que, embora o faturamento e os lucros tenham crescido, a alíquota efetiva paga pelas empresas na Espanha estagnou em 12,1%. Esse índice está significativamente abaixo da alíquota nominal do imposto de sociedades, que é de 25%, chegando a 30% no caso específico do setor bancário. A disparidade sugere que a otimização fiscal continua sendo uma ferramenta central na estratégia financeira dessas grandes corporações.

A mecânica da otimização fiscal

O relatório aponta que os grupos do Ibex 35 detêm 50% do faturamento e 55% dos lucros totais do mercado, mas representam apenas 32,8% da quota líquida tributária. Carlos Bravo, secretário de Políticas Públicas do CCOO, atribui esse descompasso à habilidade técnica dessas empresas em influenciar a legislação e utilizar estruturas fiscais complexas para reduzir a carga efetiva. A análise sugere que a capacidade de planejamento tributário supera o crescimento orgânico da receita.

Além disso, o estudo observa uma mudança na alocação de capital. Em 2024, o equivalente a 42% dos custos totais com pessoal foi direcionado ao pagamento de dividendos aos acionistas, um aumento em relação aos 37,6% observados no ano anterior. Em empresas como Naturgy e Aena, a remuneração aos acionistas chegou a superar o custo total da folha de pagamentos, sinalizando uma priorização clara do retorno ao investidor frente à expansão da força de trabalho ou investimentos produtivos.

Desigualdades na alta direção

O documento também traz luz à disparidade salarial e de gênero. Enquanto a remuneração média na Espanha é calculada em cerca de 63.000 euros segundo critérios da CNMV, os executivos de topo nessas empresas podem ganhar até 295 vezes esse valor. A concentração de renda é evidente, com a remuneração dos primeiros executivos representando quase metade do que é pago a todo o conselho de administração em diversas companhias.

No quesito equidade, o relatório aponta que o cumprimento de metas de gênero nos conselhos é superficial. Embora empresas alcancem a paridade em cadeiras de conselheiros independentes, a presença feminina em funções executivas e de representação do capital permanece baixa, com apenas 7,1% das vagas de conselheiros executivos ocupadas por mulheres. A estrutura de poder, portanto, mantém-se majoritariamente masculina em níveis decisórios.

Impacto regulatório e transparência

As implicações futuras passam pelo debate sobre a simplificação administrativa da União Europeia. O novo regulamento, que isenta 80% das empresas de reportar informações não financeiras, é visto como um obstáculo à fiscalização. A perda de transparência sobre as operações em diferentes geografias dificulta a análise sobre o cumprimento de direitos trabalhistas e práticas tributárias em países fora da jurisdição europeia.

O cenário levanta questões sobre se a reforma fiscal espanhola conseguirá equiparar a contribuição dessas gigantes à realidade econômica do país. A dependência da arrecadação sobre o consumo e o trabalho, em detrimento do capital, permanece o ponto central do embate político na Espanha, com o sindicato CCOO defendendo uma revisão profunda da equidade tributária.

A dinâmica entre o Ibex 35 e o fisco espanhol coloca em xeque a sustentabilidade social do modelo de negócios das maiores empresas do país, enquanto a transparência corporativa enfrenta um momento de retrocesso regulatório na Europa. O debate sobre quem deve arcar com o custo da infraestrutura pública e social continua aberto, sem consenso sobre o equilíbrio entre a atratividade do mercado e a responsabilidade fiscal. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España