Os certificados de recebíveis do agronegócio (CRAs) emitidos por gigantes do setor de proteínas, como Minerva e a MBRF, atravessam um momento de ajuste severo no mercado secundário. Segundo análise recente do Itaú BBA, os spreads desses papéis acumularam uma abertura média de 120 pontos-base desde meados de março, posicionando os títulos no quartil superior de exigência de retorno dentro do universo de emissores comparáveis.

Essa movimentação indica que o mercado de capitais está incorporando um prêmio de risco mais elevado à dívida das empresas. A leitura editorial é que o otimismo que sustentou esses papéis em períodos anteriores deu lugar a uma postura defensiva, motivada pelo encarecimento da matéria-prima e por entraves geopolíticos que limitam a previsibilidade das receitas das companhias.

O impacto do ciclo do gado nas margens

O principal vetor de pressão é a virada no ciclo pecuário brasileiro. Após um longo período de expansão, o rebanho nacional enfrenta uma fase de oferta restrita de animais para abate, fenômeno que eleva o custo do boi gordo e comprime as margens operacionais dos frigoríficos. Esse cenário não é exclusivo do Brasil; nos Estados Unidos, a escassez de animais também persiste, com projeções indicando que a recuperação do rebanho dificilmente ganhará tração antes de 2028.

Os resultados do primeiro trimestre de 2026 ilustram essa dificuldade operacional. Enquanto a JBS reportou uma retração acentuada no EBITDA e a MBRF registrou queda de 3,2% no resultado operacional, a pressão sobre as margens tornou-se a tônica do setor. A Minerva, embora tenha apresentado crescimento operacional, não escapou da tendência de compressão, evidenciando que o aumento nos custos de produção é um desafio estrutural que atravessa todo o segmento de carne bovina.

Fatores comerciais e barreiras externas

Além do ciclo pecuário, a política comercial chinesa introduz uma camada adicional de incerteza. A imposição de cotas de importação pela China, que já teve quase metade de seu limite anual consumido até março, sugere que o Brasil pode atingir o teto de exportação ainda no terceiro trimestre. A limitação do volume exportado para o maior parceiro comercial do país, somada às novas exigências da União Europeia sobre o uso de antimicrobianos, cria um horizonte de restrições que preocupa os investidores.

Vale notar que, embora o segmento de carne bovina enfrente ventos contrários, o setor de aves apresenta uma dinâmica distinta. A queda nos preços do milho e do farelo de soja ao longo de 2025 atuou como um amortecedor para os custos de produção, permitindo que a demanda externa por frango brasileiro seguisse firme, com volumes de exportação recordes que atenuam, em parte, o pessimismo generalizado sobre o agronegócio.

Resiliência financeira e liquidez

Diante do cenário de margens pressionadas, o Itaú BBA destaca a solidez das estruturas de capital das companhias como um fator mitigante. A distribuição estratégica dos vencimentos de dívida e a manutenção de posições de liquidez adequadas reduzem o risco de insolvência imediata, permitindo que as empresas atravessem o ciclo de baixa sem a necessidade de renegociações emergenciais ou estresse de caixa.

Essa robustez financeira é o que impede, até o momento, uma deterioração ainda maior nos preços dos títulos. A capacidade de gestão de passivos das empresas é o que mantém a confiança do mercado, ainda que o custo de captação tenha se elevado significativamente em resposta às incertezas operacionais e ao cenário macroeconômico global mais rigoroso.

Perspectivas e incertezas futuras

O comportamento dos spreads nos próximos meses dependerá da velocidade com que o ciclo do gado evoluirá e da eventual flexibilização das cotas chinesas. A capacidade dos frigoríficos de repassar custos ao consumidor final e a eficácia na adaptação às novas normas sanitárias europeias serão os próximos testes para a sustentabilidade das margens.

O mercado de proteínas vive uma fase de transição onde o prêmio de risco reflete não apenas o custo operacional, mas a complexidade de navegar em um ambiente de demanda externa instável. A observação dos próximos balanços trimestrais será crucial para entender se a reprecificação atual é um ajuste pontual ou o início de um novo patamar de custo para o setor.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney — Onde Investir