As ações do Nubank registraram uma queda acentuada de 10% na Bolsa de Nova York nesta terça-feira (2), atingindo o menor nível intradiário desde abril do ano passado. O movimento foi desencadeado pelo anúncio da saída do diretor financeiro Guilherme Lago, que ocupava o cargo desde 2021 e passará a atuar como conselheiro especial da diretoria executiva.

Para substituir Lago, o Nubank nomeou Rob Livingston, ex-executivo da Visa com passagens pela Capital One. A mudança, embora justificada pela empresa como um passo necessário para a internacionalização, foi recebida pelo mercado como uma surpresa negativa, resultando em um rebaixamento da recomendação do Bank of America para “underperform” e um corte drástico no preço-alvo, de US$ 16 para US$ 10.

O peso da sucessão na governança

A saída de Guilherme Lago não é um evento isolado, mas o ponto mais recente de uma sucessão de mudanças na alta cúpula do Nubank. Desde o início de 2025, a empresa viu a saída de nomes estratégicos, como o ex-presidente e diretor de operações Youssef Lahrech. Essa rotatividade na administração sênior alimenta, segundo analistas, uma percepção de instabilidade interna em um momento crítico da tese de investimento.

O mercado financeiro valoriza a previsibilidade, especialmente em empresas de alto crescimento que buscam consolidar margens. Quando figuras centrais que construíram a credibilidade da instituição deixam seus postos, a confiança dos investidores é testada. A chegada de Livingston, embora traga experiência global, não compensa imediatamente o vácuo de conhecimento institucional deixado por Lago.

Desafios operacionais e a tese de crédito

Além da governança, o Nubank enfrenta ventos contrários no core business. Analistas do BTG Pactual apontaram que, embora o novo CFO tenha um currículo robusto, o momento da transição coincide com preocupações latentes sobre a qualidade dos ativos e a pressão nas margens ajustadas ao risco. O mercado exige agora sinais claros de resiliência financeira.

A estratégia de expansão internacional, que visa levar o modelo de baixo custo para além da América Latina, adiciona uma camada extra de complexidade. O banco precisa provar que consegue manter a eficiência operacional enquanto navega em mercados mais maduros e competitivos, como os Estados Unidos. A incerteza sobre a execução dessa estratégia tem pesado mais do que a força da marca.

Tensões entre crescimento e rentabilidade

Para os investidores, a tensão reside no equilíbrio entre o crescimento acelerado e a disciplina financeira. O BofA destacou que a combinação de saídas inesperadas e a deterioração nos indicadores de crédito torna o risco/retorno atual menos atraente. O banco precisará de vários trimestres de resultados sólidos para restaurar a confiança dos analistas que agora questionam a visibilidade dos lucros futuros.

O ecossistema financeiro brasileiro observa com atenção, dado que o Nubank é um dos principais vetores de inovação no setor. A mudança de foco para o mercado internacional, embora ambiciosa, retira parte da atenção da consolidação necessária em mercados como Brasil, México e Colômbia. A capacidade de manter a base de clientes engajada enquanto ajusta os modelos de crédito será determinante para o sucesso da nova gestão.

O caminho para a estabilização

O que permanece incerto é se a nova liderança financeira conseguirá mitigar a volatilidade das ações no curto prazo. O mercado espera que o Nubank apresente números que confirmem a tese de longo prazo, mas a paciência dos investidores parece estar se esgotando diante das sucessivas mudanças no comando.

Os próximos trimestres serão decisivos para definir se a transição de liderança foi apenas um ajuste pontual ou um sinal de dificuldades estruturais mais profundas. A capacidade de Livingston em comunicar a nova fase do banco será fundamental para reverter a desconfiança e evitar que o Nubank perca seu status de queridinho dos investidores internacionais.

A volatilidade observada reflete o ajuste de expectativas de um mercado que, após anos de otimismo, agora exige resultados tangíveis e estabilidade operacional. O Nubank transita de uma fase de crescimento desenfreado para uma etapa de maturidade, onde a governança e a solidez do balanço passam a ser os critérios primordiais de avaliação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney