A Americares, organização não governamental que atua na área de saúde em escala global, anunciou ter recebido a maior doação de sua história: um aporte de US$ 50 milhões vindo de uma família anônima de Connecticut, nos Estados Unidos.

O movimento, noticiado pela Fortune, ocorre em um cenário de cortes significativos na ajuda internacional provida pelo governo americano, que impactaram diretamente programas de saúde. A questão que se impõe é sobre a sustentabilidade de um modelo que passa a depender da benevolência de indivíduos para preencher lacunas deixadas pelo poder público.

O vácuo e o vulto

Nos últimos anos, com a redução do orçamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), bilionários e fundações privadas têm sido chamados a intervir. Os pais de Jeff Bezos, por exemplo, destinaram até US$ 500 milhões para o Fundo de Nutrição Infantil da UNICEF. A Fundação Gates, por sua vez, afunilou suas prioridades para otimizar o impacto. Segundo Susan Appe, professora da Universidade de Albany que pesquisa o setor, a saúde global atrai grande parte dessa atenção filantrópica pela urgência do tema, onde "vidas estão em jogo".

Apesar disso, a resposta não tem sido tão robusta quanto o esperado. Appe expressa uma certa decepção com a lentidão da filantropia em reagir de forma mais ampla aos cortes governamentais, sugerindo que, para muitos, a rotina de doações segue como de costume, sem um senso de urgência para cobrir o déficit sistêmico deixado pelo Estado.

Um voto de confiança, com ressalvas

A própria Americares sentiu o impacto dos cortes. Um projeto de assistência materna na Tanzânia e o suporte a clínicas para migrantes venezuelanos na Colômbia perderam financiamento governamental. A doação de US$ 50 milhões chega como um alívio estratégico. Metade do valor será usada para expandir o acesso a serviços de saúde para 100 milhões de pessoas até 2030, e a outra metade fortalecerá o endowment (fundo patrimonial) da organização, garantindo maior resiliência financeira.

Para Christine Squires, CEO da Americares, os doadores "entenderam o momento". A expectativa é que um cheque desse calibre sirva como um voto de confiança no setor humanitário e inspire outros a doar. A lógica é que o investimento privado de grande porte pode catalisar mais filantropia.

O gesto, no entanto, não resolve a questão estrutural. A dependência de doações individuais, por mais generosas que sejam, introduz um elemento de imprevisibilidade que políticas de Estado consistentes poderiam mitigar. A questão que fica não é apenas se mais filantropos aparecerão, mas o que significa para um setor tão crítico depender da "paixão e dos meios" de poucos, em vez de um compromisso público e coletivo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune