Há dez anos, o New York Film Festival (NYFF) abria com “13th”, o contundente documentário de Ava DuVernay sobre a massiva encarceramento de negros americanos como uma brecha da Décima Terceira Emenda da Constituição. Agora, o mesmo festival anuncia que sua noite de encerramento será a estreia de “14th”, da mesma diretora. O novo filme, segundo DuVernay, busca “interrogar uma promessa poderosa o suficiente para mudar uma nação — e controversa o suficiente para dividi-la por mais de 150 anos”.
Este espelhamento temporal, que conecta duas eras políticas através de duas emendas constitucionais, serve como uma poderosa metáfora para a temporada de festivais que se avizinha. Com os anúncios de Veneza e Toronto dando a largada, as escolhas de programação do NYFF, um dos mais influentes do circuito, sugerem um período de introspecção e questionamento, não apenas de entretenimento.
Um circuito de espelhos
A escolha de “14th” para o encerramento do NYFF é sintomática. O festival, que abrirá com “Paper Tiger”, do aclamado diretor James Gray, parece construir uma narrativa curatorial própria. De um lado, um cineasta que consistentemente explora as fissuras do sonho americano; do outro, uma diretora que usa o cinema como ferramenta de investigação histórica e ativismo. Juntos, eles emolduram um evento que se propõe a ser mais do que uma vitrine de lançamentos.
Essa conversa entre presente e passado se estende para além das estreias. O mesmo circuito que celebrará os novos trabalhos de Gray e DuVernay também se volta para sua própria história, como aponta o Criterion Daily. A notícia de uma nova restauração de “Noites Brancas” (1957), de Luchino Visconti, e o luto pela perda de Simon Field — programador seminal que moldou festivais como o de Rotterdam — reforçam a ideia do cinema como um contínuo. Os festivais, nesse ecossistema, funcionam como o espaço onde novas vozes são descobertas ao mesmo tempo em que o cânone é revisitado e preservado.
O termômetro da cultura
É tentador enxergar o circuito de festivais de outono — Veneza, Telluride, Toronto, Nova York — apenas como a primeira volta na corrida pelo Oscar. A realidade, contudo, é mais complexa. Esses eventos funcionam como um sismógrafo cultural, registrando os tremores e as grandes questões de seu tempo. A proeminência de um filme como “14th” não é um acaso; é um reflexo de um momento que exige que a arte confronte as promessas não cumpridas da história.
A programação não apenas lança candidatos a prêmios, mas define os termos do debate para os meses seguintes. Ela estabelece quais narrativas são consideradas urgentes, quais estéticas estão rompendo com o passado e quais cineastas têm algo novo a dizer. A seleção de um festival é, em si, um ato editorial sobre o estado do cinema e do mundo.
Ao colocar em diálogo um novo James Gray, uma investigação de Ava DuVernay e uma obra-prima restaurada de Visconti, o NYFF sugere que a força do cinema não reside apenas em sua capacidade de criar mundos, mas em sua insistência em decifrar o nosso. Resta saber quais perguntas esses filmes deixarão ecoando quando as luzes da sala se acenderem e a temporada de premiações realmente começar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Criterion Daily





