A Tereos, uma das maiores produtoras de açúcar do mundo, soou um alarme que ecoa por toda a cadeia de alimentos da Europa. A companhia francesa prevê que o calor e a seca extremos do verão no continente devem derrubar a produtividade da beterraba sacarina em mais de 20% em relação ao ano passado. O resultado, segundo a empresa, pode ser a menor produção de açúcar da União Europeia em 38 anos.
O prognóstico não é apenas um dado setorial, mas um sintoma agudo do impacto da volatilidade climática em cadeias de suprimentos altamente otimizadas. O movimento da Tereos ilustra a severidade da crise: a empresa planeja encurtar sua campanha de produção de 130 para 100 dias e adiar o início da colheita, na esperança de que chuvas tardias possam salvar parte do rendimento.
A colheita da crise climática
A previsão da Tereos materializa as discussões abstratas sobre mudanças climáticas em consequências operacionais e financeiras. A quebra de safra não é um evento isolado, mas parte de um padrão de eventos climáticos extremos que afetam a agricultura europeia, do milho à batata. A dependência de uma única cultura, como a beterraba na Europa, para a produção de açúcar revela a fragilidade do modelo diante de choques sistêmicos.
O impacto é agravado por outros fatores, como a pressão de pragas e doenças, que prosperam em condições de estresse hídrico e térmico. A decisão de encurtar a campanha industrial é uma medida de contenção de danos, mas que não resolve o problema estrutural: a crescente inadequação das práticas agrícolas tradicionais a um novo regime climático.
O reequilíbrio amargo do mercado
A contração drástica da oferta europeia já reverbera nos preços. Em comunicado, a própria Tereos nota que os valores do açúcar estão se recuperando após um período de baixa, o que deve "retornar o setor a um nível mais equilibrado de desempenho". É um reequilíbrio amargo, construído sobre uma quebra de produção e não sobre um aumento de demanda ou eficiência.
Para um mercado globalizado, a crise de um grande produtor continental abre espaço para outros players, mas também eleva o custo da matéria-prima para a indústria de alimentos em escala mundial. O episódio serve de alerta para a interconexão entre clima, agricultura e economia, onde a estabilidade de preços depende, cada vez mais, da estabilidade dos termômetros.
O relatório da Tereos é menos uma previsão de negócios e mais um boletim sobre a vulnerabilidade da nossa infraestrutura alimentar. A questão que fica não é se choques como este se repetirão, mas com que frequência e qual será a capacidade de adaptação de um setor tão fundamental.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





