O governo federal decidiu que o rosto do brasileiro será seu novo documento de embarque. Uma portaria do Ministério dos Portos e Aeroportos oficializou a criação da Política Nacional Setorial de Identificação Biométrica, estabelecendo as diretrizes para unificar o uso do reconhecimento facial em todos os aeroportos, portos e hidrovias do país. O objetivo é claro: aposentar bilhetes de papel e documentos físicos, substituindo-os por uma validação digital contínua.

A iniciativa busca transformar uma série de projetos-piloto fragmentados, como o programa “Embarque + Seguro” presente em hubs como Congonhas e Santos Dumont, em um sistema nacional e padronizado. A leitura aqui é que o governo aposta na tecnologia para destravar gargalos de infraestrutura sem a necessidade de expansões físicas dispendiosas, uma tese que agora será testada em escala nacional.

Do piloto à política nacional

A transição da experimentação para a política pública será coordenada por um Comitê Técnico Interinstitucional. O grupo, que reúne membros da Anac, Antaq, Polícia Federal e setor privado, terá 90 dias para apresentar um plano de implementação e um cronograma. A medida sinaliza um amadurecimento da estratégia de digitalização do Estado, movendo-se de testes isolados para uma plataforma unificada.

O racional é eminentemente econômico e operacional. Ao acelerar o fluxo de passageiros, as companhias aéreas podem reduzir o tempo de solo das aeronaves — o chamado turnaround —, um dos principais indicadores de eficiência do setor. Para os operadores de terminais, significa otimizar o uso do espaço e reduzir filas. A padronização também alinha o Brasil às práticas de segurança já adotadas em grandes aeroportos da Europa e dos Estados Unidos.

Eficiência versus vigilância

Na prática, a mudança promete eliminar a repetitiva apresentação de documentos e cartões de embarque. Câmeras inteligentes farão a validação do passageiro conectando-se a bases de dados governamentais, como as da Carteira Nacional de Habilitação e da Justiça Eleitoral. O rosto se torna a única chave de acesso, da entrada do terminal ao portão de embarque.

Contudo, a conveniência tem um contrapeso. A criação de uma infraestrutura que centraliza dados biométricos e de deslocamento de milhões de cidadãos levanta questões críticas sobre segurança e privacidade que a portaria não detalha. A eficácia do sistema dependerá não apenas da precisão das câmeras, mas da robustez da arquitetura de cibersegurança que protegerá essas informações sensíveis.

O movimento do papel ao pixel nos transportes é um caminho sem volta. O desafio, agora, não é tecnológico, mas de governança. O plano a ser divulgado pelo comitê será a primeira indicação real se a proteção de dados dos cidadãos receberá a mesma prioridade que a busca por eficiência operacional.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times