O canal de negociação entre o Brasil e os Estados Unidos sobre as novas tarifas de importação foi reaberto. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, e o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, devem retomar as conversas virtuais nesta semana, com a participação do Itamaraty. As negociações estavam paralisadas desde 14 de julho, véspera do anúncio da primeira sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros.
A retomada foi destravada por um telefonema de mais de uma hora entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente americano, Donald Trump, na última sexta-feira. A leitura em Brasília, contudo, é de pragmatismo. O governo brasileiro não espera uma reversão das tarifas, mas sim a possibilidade de negociar uma ampliação da lista de exceções, mitigando o impacto sobre a indústria nacional.
O pragmatismo da diplomacia
A reabertura do diálogo sinaliza uma mudança tática do governo brasileiro. Se em um primeiro momento a resposta se concentrou em refutar publicamente as justificativas americanas — que incluem desde desmatamento e propriedade intelectual até o sistema Pix —, agora a estratégia parece focar em um objetivo mais realista: o controle de danos. A fala do ministro Márcio Elias Rosa, de que “não é de se esperar que eles retroajam na decisão”, define o tom da nova fase.
O telefonema entre os chefes de Estado funcionou como o óleo que lubrifica a engrenagem diplomática, permitindo que as equipes técnicas voltem à mesa. Embora Lula tenha classificado as alegações dos EUA como “infundadas”, a realidade do comércio exterior se impõe. A negociação, agora, abandona as grandes narrativas e se concentra no varejo, item por item, buscando salvar o que for possível de uma pauta exportadora onde quase metade (47,3%) está sujeita a alguma sobretaxa.
O xadrez das exceções
O desafio é concreto e afeta diretamente 8,6 mil empresas brasileiras, segundo dados do próprio MDIC. Com uma segunda tarifa de 12,5% anunciada em 23 de julho, a pressão sobre os exportadores se intensificou. A negociação por exceções se torna, portanto, um xadrez de alta complexidade, onde cada setor buscará defender seus interesses junto ao governo para ser incluído na lista de isenções a ser pleiteada com Washington.
Para o Brasil, o sucesso da empreitada não será medido pela revogação das tarifas — um cenário visto como improvável —, mas pela capacidade de seus negociadores em construir argumentos técnicos sólidos para cada produto ou setor que se busca isentar. A conversa “cordial” entre Lula e Trump abriu a porta. Atravessá-la e obter resultados tangíveis, contudo, dependerá da habilidade técnica e do poder de barganha da diplomacia comercial brasileira.
O episódio serve como um termômetro para as relações comerciais em uma era de crescente protecionismo. A vitória, neste contexto, pode não ser reverter a maré, mas simplesmente encontrar um porto seguro para o maior número possível de embarcações.
Source · InfoMoney





