A Polícia Federal concluiu o primeiro inquérito sobre irregularidades no Banco Master e indiciou o banqueiro Daniel Vorcaro e o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, por crimes financeiros. A operação envolve a venda de R$ 17,5 bilhões em carteiras de crédito ao banco público do Distrito Federal, com suspeita de fraude em pelo menos R$ 12 bilhões de ativos, principalmente pela fabricação de falsas carteiras de crédito consignado. A PF aponta Vorcaro como líder de uma organização criminosa e detalha sua participação direta na obtenção de dados, formação e cessão de carteiras, captação de recursos e produção de documentos falsos para conferir aparência de normalidade às operações.

O Mecanismo da Fraude

A investigação da PF, detalhada em relatório enviado ao STF, descreve como o Banco Master teria operado para induzir o BRB a erro. A cessão de créditos, incluindo produtos como crédito consignado, empréstimo pessoal e parcelamento de faturas, ocorreu entre julho de 2024 e outubro de 2025. O valor total negociado ultrapassou os R$ 17,5 bilhões, com o relatório da PF indicando que mais de R$ 12 bilhões em créditos considerados problemáticos ou inexistentes foram cedidos ao banco público. A operação continuou mesmo após o Banco Central ter barrado a venda do Master ao BRB em setembro de 2025. A PF destaca a ausência de procedimentos básicos de diligência, validação de lastros e gestão de riscos, com documentação preparada em planilhas de Excel com dados suspeitos de falsificação.

Implicações para o BRB e o Sistema Financeiro

O indiciamento de Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa, além de outros diretores e ex-sócios envolvidos, levanta sérias questões sobre a governança e os mecanismos de controle no setor financeiro. O prejuízo ao BRB ainda não foi calculado com exatidão, mas a PF estima um mínimo de R$ 2,7 bilhões, com potencial de dano significativamente maior. A situação levou o banco público do Distrito Federal a buscar um empréstimo de R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que está travado. A operação, denominada Compliance Zero, teve início em novembro do ano passado e já conta com dez fases, ampliando o escopo para crimes como corrupção de agentes públicos e obstrução de justiça. A vinculação de Vorcaro aos fatos é descrita pela PF como pessoal, reiterada e diretiva, contrastando com sua defesa que alega que não houve prejuízo ao BRB.

Defesas e Próximos Passos

As defesas de Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa negam as acusações. A defesa de Vorcaro afirma que as carteiras de crédito foram substituídas por outros ativos, isentando o BRB de prejuízos. Já a defesa de Costa argumenta que ele não tinha conhecimento das irregularidades e apenas cumpriu ordens do governo do Distrito Federal. Vorcaro, que já foi preso e solto anteriormente, foi indiciado por gestão fraudulenta, induzir a erro investidor, fraudar fiscalização, organização criminosa e lavagem de dinheiro, crimes com penas que somam entre 12 e 41 anos. Paulo Henrique Costa foi indiciado por gestão fraudulenta e organização criminosa. O relatório final da PF será encaminhado ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para decidir sobre a apresentação de denúncia formal, o que tornaria os indiciados réus.

Perguntas em Aberto

A investigação aponta para um esquema complexo que envolveu a fabricação de documentos e a manipulação de informações para a venda de ativos financeiros. A dimensão exata do prejuízo ao BRB e a extensão da participação de outros agentes públicos e privados permanecem sob apuração. A forma como o Banco Central e outros órgãos reguladores monitoraram ou falharam em identificar a fraude em seus estágios iniciais também é um ponto que merece análise aprofundada. As respostas apresentadas pelos indiciados, que divergem frontalmente das evidências colhidas pela PF, deverão ser o centro do debate jurídico nos próximos meses, com foco na responsabilidade individual e corporativa.

A Operação Compliance Zero continua a desdobrar-se, com novas fases e frentes de investigação em andamento. A análise dos diálogos e das provas coletadas pela PF sugere que o Banco Master dependia dos recursos do BRB para manter sua liquidez, evidenciando uma fragilidade estrutural que foi explorada. A forma como essas operações bilionárias foram estruturadas sem a devida diligência e conformidade regulatória expõe vulnerabilidades no sistema financeiro brasileiro, cujas consequências podem reverberar por mais tempo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times