A perspectiva de uma safra recorde de grãos no Brasil, estimada em 360,8 milhões de toneladas para a temporada 2025/26, acende um sinal de alerta e, ao mesmo tempo, de oportunidade para os Fiagros (Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas do Agronegócio). Contudo, a análise simplista de que uma produção maior se traduz diretamente em retornos superiores para esses fundos é um equívoco. A Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) destaca que uma colheita volumosa pode ter efeitos distintos sobre os diversos ativos que compõem as carteiras dos Fiagros, desde imóveis rurais e participações em empresas até títulos de crédito e direitos creditórios. Uma produção elevada pode, por exemplo, impulsionar negócios ligados à armazenagem e logística, beneficiando fundos com exposição a esses segmentos. Por outro lado, o excesso de oferta pode pressionar os preços das commodities, impactando negativamente produtores e, consequentemente, operações de crédito que dependem de sua capacidade de pagamento.

O que o Fiagro tem na carteira?

Para navegar neste cenário complexo, a Anbima propõe que o investidor examine com atenção a composição da carteira do fundo. A exposição predominante a crédito, imóveis, empresas ou uma combinação desses ativos determinará as fontes de receita e as variáveis que mais influenciarão o desempenho. Fundos com forte componente de crédito, por exemplo, estarão mais sensíveis às flutuações de preços das commodities e à saúde financeira dos produtores. Já aqueles com foco em imóveis rurais dependerão de contratos de arrendamento e da ocupação dos ativos. Compreender essa estrutura é o primeiro passo para avaliar como o fundo se beneficia ou se protege das dinâmicas do agronegócio.

Quem está por trás dos investimentos?

Uma análise aprofundada deve ir além da classe de ativos e investigar os tomadores de crédito e os parceiros de negócio. Nos Fiagros focados em crédito, é fundamental conhecer os devedores, a concentração das operações e as garantias. Para fundos imobiliários, a qualidade dos contratos de arrendamento e a localização dos imóveis são cruciais. No caso de exposição a empresas, a capacidade dessas companhias de gerar resultados e de se adaptar às mudanças de mercado é o ponto chave. A solidez e a gestão dos parceiros subjacentes são determinantes para a mitigação de riscos.

A carteira é diversificada?

A diversificação é um pilar essencial na gestão de riscos. Carteiras excessivamente concentradas em um único ativo, cultura agrícola, região ou atividade tornam o fundo mais vulnerável a eventos específicos. A Anbima enfatiza a importância de verificar como os riscos estão distribuídos e qual o grau de dependência de determinados segmentos do agronegócio. Uma carteira bem diversificada tende a apresentar maior resiliência diante de choques setoriais ou climáticos.

Os rendimentos são consistentes?

O histórico de distribuição de dividendos é um indicador valioso, embora não garanta retornos futuros. A análise do desempenho passado permite avaliar a consistência dos rendimentos e sua compatibilidade com a estratégia declarada do fundo. É igualmente importante investigar a origem desses rendimentos: um pico pontual, decorrente de um evento extraordinário, não deve ser confundido com uma performance recorrente. A gestão deve ser capaz de gerar valor de forma sustentável.

O que dizem os documentos — e o próprio agro?

Por fim, a Anbima recomenda diligência na análise dos documentos oficiais do fundo, como relatórios gerenciais e lâminas, que detalham a composição da carteira, as decisões de gestão e os riscos. Paralelamente, o acompanhamento do próprio setor agropecuário, incluindo fatores como clima, câmbio e custos de produção, é indispensável. A safra recorde é um fator favorável, mas seu impacto real sobre cada Fiagro dependerá intrinsecamente da estratégia de gestão e da adequação dos ativos à conjuntura.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times