Quentin Tarantino confessou ter abandonado uma sessão de “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant”, clássico de 1972 do diretor alemão Rainer Werner Fassbinder. “Eu vi no cinema e mal cheguei aos créditos”, disse o diretor, segundo reportagem do site espanhol Xataka. A anedota não é apenas um gracejo sobre o gosto do diretor de “Pulp Fiction”; ela expõe a tensão entre tradições cinematográficas e questiona a própria noção de um cânone universal, servindo como um estudo de caso sobre os limites da apreciação artística.
A colisão de estéticas
O filme de Fassbinder é o antípoda do cinema de Tarantino. Trata-se de um melodrama claustrofóbico e teatral, filmado integralmente em um único apartamento, com diálogos declamados e uma estética deliberadamente artificial. Para o diretor cuja marca registrada é a colagem de referências da cultura pop e uma energia narrativa cinética, a experiência formalista e eminentemente europeia de Fassbinder pode ser alienante. A barreira aqui não parece ser intelectual, mas puramente estética.
O cânone é subjetivo?
O episódio reforça uma verdade inconveniente para a crítica: o gosto é irredutível. A mesma obra reverenciada por cineastas como Olivier Assayas e Abel Ferrara se mostrou intransponível para Tarantino. Ele mesmo já admitiu ter precisado de três tentativas para apreciar “Dunkirk”, de Christopher Nolan, que hoje defende com paixão. A confissão humaniza o consumo cultural, mostrando que mesmo os criadores mais enciclopédicos possuem seus pontos cegos e preferências.
A “derrota” de Tarantino diante de Fassbinder não diminui nenhum dos dois. Pelo contrário, serve como um lembrete de que o diálogo com a história do cinema não é uma prova de erudição, mas uma conversa, por vezes, frustrante. A questão não é concordar com ele, mas entender por que certas portas, mesmo abertas, permanecem difíceis de cruzar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





