A Waymo, unidade de veículos autônomos da Alphabet, está importando milhares de vans elétricas da chinesa Zeekr para sua frota nos EUA, um volume materialmente superior ao que o mercado estimava. Em análise publicada pela Forbes em 7 de agosto de 2026, dados da consultoria Import Genius revelam que mais de 3.200 unidades do modelo foram despachadas para o porto de Los Angeles desde 2024. A manobra ocorre apesar de uma barreira tarifária de 127,5% sobre EVs fabricados na China, que na prática impede sua venda ao consumidor americano. A estratégia da Waymo expõe uma arbitragem regulatória: enquanto a política comercial veta a competição direta, a empresa usa seu capital para absorver o custo e acessar o hardware que considera essencial para escalar seu serviço de robotáxi.
A Aritmética da Escala e a Surpresa do Mercado
A escala das importações pegou analistas de surpresa. Michael Morton, da Moffett Nathanson, afirmou em relatório que o mercado considerava o futuro da Waymo com o veículo — referido como "O Hi" — um "beco sem saída" devido às tarifas. "Para ser franco, ficamos surpresos com o que encontramos", disse Morton. Sua firma estima uma média de 300 importações mensais, um volume "materialmente maior do que os investidores supunham". Os dados de conhecimento de embarque compilados pela Import Genius, que identificam a Zeekr ou o modelo do veículo, sustentam um número de "pelo menos" 3.200 unidades desde 2024, com mais de 2.600 apenas neste ano.
O custo dessa estratégia é substancial. O preço do modelo no mercado chinês, o CM1E, é de US$ 39.000. Com as tarifas, o valor salta para quase US$ 89.000 por unidade, antes mesmo de incluir o hardware de autonomia da Waymo, cujo custo provável excede US$ 10.000. Embora a Waymo não confirme os valores, a empresa, que já levantou mais de US$ 20 bilhões desde sua origem como projeto do Google em 2009, tem capacidade financeira para arcar com o preço inflacionado. A questão central não é a viabilidade, mas o impacto na sua longa jornada rumo à lucratividade.
O Dilema do Hardware para Atingir a Liderança
A aposta na Zeekr é uma resposta à necessidade urgente de expandir a frota. A Waymo já opera em 11 cidades americanas e planeja lançar em outras quatro, com mais de 500.000 corridas pagas por semana. A meta é atingir 1 milhão de corridas semanais até o final do ano, o que poderia gerar uma receita anual superior a US$ 1 bilhão em 2027, com base em uma tarifa média de US$ 20. Para sustentar essa ambição, a empresa precisa de muito mais veículos do que seus atuais 3.900, que incluem uma base de SUVs Jaguar I-Pace, um modelo já descontinuado.
As vans da Zeekr, que a Waymo chama de Waymo One, representam a principal via de expansão. Um porta-voz da empresa confirmou que o veículo "será uma grande parte de nossos esforços de escalonamento". A empresa também diversifica sua base de hardware, preparando versões modificadas do hatchback elétrico Ioniq 5, da Hyundai, que será fabricado em uma planta na Geórgia. Essa dualidade de fornecedores — um chinês, sujeito a altas tarifas, e outro com produção local — revela uma estratégia de hedge, mas a escala das importações da Zeekr indica onde está a prioridade para aceleração de curto prazo.
A decisão da Waymo de absorver tarifas punitivas para importar tecnologia chinesa em escala ilustra um pragmatismo corporativo que se sobrepõe à geopolítica. A empresa calcula que o custo de acelerar a dominação do mercado de robotáxis é menor do que o risco de esperar por alternativas de hardware locais ou de outras origens. Ao explorar essa brecha, a Waymo não apenas contorna a intenção da política comercial americana, mas também utiliza o ecossistema de manufatura chinês — considerado o "padrão global de fato" para EVs — como uma vantagem competitiva para construir uma liderança de rede que seus rivais dificilmente poderão replicar.
Fonte · Brazil Valley | Mobility




