Em painel recente organizado pelo Special Competitive Studies Project (SCSP), Eric Schmidt, ex-CEO do Google e atual CEO da Relativity Space, articulou uma visão implacável sobre a transição tecnológica global. Para o executivo, a inteligência artificial não está superestimada; pelo contrário, seu impacto real ainda é subestimado pelo mercado. A tese central de Schmidt repousa em duas frentes de ruptura irreversível: a obsolescência da programação tradicional de software e a transformação radical da doutrina militar, onde ativos caros e lentos dão lugar a enxames de sistemas autônomos. Mais do que uma evolução de algoritmos, a corrida pela liderança em IA tornou-se uma disputa de infraestrutura pesada, na qual a restrição principal não será apenas a energia, mas a capacidade de alocar capital na casa das centenas de bilhões de dólares.

A guerra transparente e a paridade algorítmica

A Ucrânia, segundo Schmidt, tornou-se o laboratório definitivo para o futuro do combate. A dinâmica atual revelou o que ele chama de "campo de batalha transparente": qualquer equipamento grande, lento e que emita calor — como tanques e artilharia tradicional — tornou-se vulnerável a ataques coordenados. A doutrina militar do futuro será amplamente robótica e automatizada, operando nos domínios aéreo, terrestre e marítimo. Em vez de investir em peças de artilharia convencionais, o executivo defende que a segurança nacional deve focar na produção e no controle de enxames de drones, mantendo o modelo americano de supervisão humana sobre o uso da força.

No cenário macro, a eficácia dos controles de exportação de hardware impostos pelos Estados Unidos à China começa a falhar. Schmidt observa que o lançamento do modelo chinês DeepSeek V4 demonstra a capacidade do país de contornar restrições físicas. Utilizando chips menos avançados, como a linha Ascend, engenheiros chineses desenvolveram inovações de software que os colocam a cerca de seis meses de distância dos modelos americanos de ponta. A estratégia chinesa de focar em modelos de código aberto preocupa o executivo, pois a ampla difusão global de pesos abertos (open weights) dificulta o rastreamento e abre margem para que atores mal-intencionados utilizem a tecnologia para ataques cibernéticos. Para contexto, a BrazilValley aponta que a tensão entre a proliferação de modelos abertos e a segurança nacional tem dominado os debates regulatórios em Washington, opondo corporações que defendem ecossistemas proprietários a fundações que priorizam a inovação descentralizada.

O choque de infraestrutura e a nova engenharia

No setor privado, a mudança mais imediata ocorre na própria criação de software. Schmidt decreta o fim da programação tradicional baseada em sintaxe manual. O fluxo de trabalho contemporâneo envolve um engenheiro gerenciando múltiplos agentes de IA — como "dez amigos Claude ou Gemini" — definindo funções objetivas e supervisionando a geração de código. O profissional deixa de ser o construtor operacional para atuar como o arquiteto do sistema. Essa mudança promete ganhos drásticos de produtividade, exigindo que o mercado corporativo e o sistema educacional abandonem o aprendizado mecânico em favor do desenvolvimento de capacidades analíticas e formulação de comandos complexos.

Sustentar essa nova arquitetura exige uma escala de infraestrutura sem precedentes. Schmidt relata que a indústria está migrando para data centers remotos com geração própria de energia (projetos behind the meter), contornando os gargalos das redes elétricas tradicionais. O custo financeiro, contudo, é colossal. Com um data center de um gigawatt custando cerca de US$ 50 bilhões, uma infraestrutura de 10 gigawatts exigiria meio trilhão de dólares. O limite real para o avanço da IA, argumenta o executivo, não será puramente tecnológico ou energético, mas o acesso a esse volume de capital, uma vantagem estrutural do mercado financeiro americano.

A análise de Schmidt ilustra que a inteligência artificial deixou de ser um produto de software para se tornar a infraestrutura crítica basal tanto da economia quanto da defesa nacional. A transição exige uma reconfiguração completa na alocação de recursos: militares devem trocar blindados por sistemas autônomos, engenheiros devem trocar a escrita de código pela orquestração de modelos, e nações precisam estruturar mercados de capitais capazes de financiar data centers com orçamentos equivalentes ao PIB de países inteiros. A vantagem competitiva pertencerá aos atores que conseguirem integrar capital intensivo, adaptação doutrinária e infraestrutura energética independente.

Fonte · Brazil Valley | Technology