A retórica apocalíptica que emana dos principais executivos de inteligência artificial não é um exercício de responsabilidade moral, mas uma estratégia agressiva de captação de recursos. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | AI em 4 de maio de 2026, Scott Galloway sustenta que o discurso sobre a iminente destruição em massa de empregos funciona como uma justificativa para os valuations astronômicos do setor. Para que as atuais avaliações de mercado façam sentido, essas empresas precisam gerar um trilhão de dólares em receitas incrementais ou forçar uma eficiência brutal baseada na eliminação de postos de trabalho. A narrativa de que a tecnologia é incontrolável e transformadora cria a urgência necessária para atrair capital barato, operando como uma roupagem sofisticada para o marketing corporativo.

O descompasso entre a narrativa e os dados

Apesar das previsões de que a inteligência artificial tornaria o trabalho opcional, os dados macroeconômicos apontam para outra direção. Galloway destaca que a taxa de desemprego nos Estados Unidos permanece na casa dos 4,5%, com o desemprego juvenil em 8,8%, números que não sustentam a tese de um abalo sísmico no emprego. Profissões que antes eram consideradas o marco zero da substituição tecnológica, como a radiologia, registraram aumento no número de vagas, assim como a demanda por programadores, que cresceu 11% no último ano. A automação, segundo o falante, não elimina a profissão, mas exige que o profissional saiba operar a tecnologia para aumentar sua própria produtividade.

O verdadeiro impacto da inteligência artificial no valor para o acionista não virá de robôs domésticos servindo chá, mas da intersecção entre IA e robótica industrial. Galloway aponta a Amazon como o principal expoente dessa tese. A companhia opera cerca de um milhão de robôs industriais — mais que o dobro do restante do país somado — e projeta dobrar sua operação de varejo até 2032 sem contratações incrementais. Fora do que foi dito no vídeo, a análise editorial reconhece que a transição de narrativas puramente digitais para infraestrutura física de automação tem sido um vetor consistente de consolidação de monopólios na última década.

A idolatria tecnológica e o isolamento da elite

A percepção pública sobre a inteligência artificial sofreu uma erosão severa em um período de 18 meses, tornando-se uma tecnologia cuja aprovação está diretamente correlacionada à riqueza do usuário. Galloway argumenta que figuras como Sam Altman assumiram o papel de novos ídolos em uma sociedade carente de instituições religiosas, projetando a ilusão de que possuem os melhores interesses da humanidade em mente. A realidade mecânica do capitalismo, no entanto, exige que esses executivos priorizem o lucro marginal por ação, o que frequentemente resulta em externalidades negativas não precificadas, exigindo regulação estatal em vez de confiança na bússola moral do fundador.

A ascensão dessa elite tecnológica é acompanhada por um niilismo estrutural. Galloway relata que uma parcela significativa de bilionários mantém planos de contingência, como bunkers na Nova Zelândia, refletindo uma dissociação completa do tecido social americano. Isolados por voos privados, medicina de ponta e segurança particular, o 0,1% deixou de investir no bem-estar coletivo. Essa dinâmica de mercado, movida pelo culto à personalidade, reflete-se no destino do capital: Galloway prevê que recursos migrarão da Tesla para a SpaceX à medida que investidores buscam manter exposição ao carisma de Elon Musk, enquanto a montadora passa a ser avaliada por múltiplos tradicionais do setor automotivo diante da concorrência brutal de empresas como a BYD.

A transição imposta pela inteligência artificial não exige submissão ao pânico, mas adaptação tática. O domínio de novas ferramentas determina quem captura as margens de eficiência recém-criadas. Contudo, as competências mais raras no novo cenário não são puramente técnicas. O diferencial competitivo retorna à biologia: a capacidade de construir narrativas complexas e a resiliência para suportar a rejeição. Em um ambiente onde as interações digitais se tornam cada vez mais polidas e sem atrito, a vantagem desproporcional pertencerá àqueles dispostos a operar na fricção do mundo real.

Fonte · Brazil Valley | AI