A pouco mais de duas semanas do primeiro turno, a disputa pelo governo da Bahia ganhou um novo capítulo de judicialização da política. O candidato ACM Neto (União Brasil) veio a público para acusar a divulgação de um pedido de busca e apreensão contra ele, no âmbito da Operação Overclean da Polícia Federal, de ser uma tentativa de interferência eleitoral. O pedido, vale notar, foi negado pelo ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O movimento de Neto busca enquadrar o episódio como uma manobra orquestrada por seus adversários. Segundo o candidato, trata-se de "vazamentos seletivos" para associar seu nome a ilícitos. A tese é que, mesmo sem uma ação judicial efetiva, a mera notícia de uma investigação em curso já produz o dano político desejado na reta final de uma campanha acirrada.
O roteiro do vazamento
A investigação da PF apura suspeitas de direcionamento em contratos que somam mais de R$ 80 milhões na Secretaria de Educação de Belo Horizonte. A suspeita contra Neto era de que ele teria participado da indicação de um secretário para a prefeitura mineira com o objetivo de facilitar um esquema de propina. A Procuradoria-Geral da República (PGR) deu parecer favorável à busca, mas o STF a barrou por falta de base legal suficiente.
O ponto central da crise, portanto, não é a operação em si, mas a mecânica de sua divulgação. Para a campanha de Neto, o fato de um pedido negado vir a público configura o que chamou de "criação de factoides". A estratégia é transformar a acusação de interferência em uma narrativa de contra-ataque, acusando o grupo político que governa o estado há 20 anos de usar a máquina pública para se manter no poder.
Entre a Justiça e a urna
A decisão de Nunes Marques de negar o pedido da PF serve como um contraponto importante, validando a defesa de Neto de que as suspeitas eram inconsistentes. No entanto, no tribunal da opinião pública eleitoral, a nuance jurídica muitas vezes se perde. A associação do nome de um candidato a uma operação da Polícia Federal, independentemente do desfecho, tem um potencial corrosivo.
O episódio, contudo, não está totalmente isolado. Um dos alvos da operação que teve a busca efetivada foi Bruno Barral, ex-secretário de Educação de Belo Horizonte que ocupou a mesma pasta na gestão de ACM Neto em Salvador. Essa conexão mantém a questão no radar e ilustra a complexa fronteira entre a investigação criminal legítima e seu uso como munição política em períodos eleitorais.
O caso joga luz sobre uma dinâmica recorrente no Brasil: a disputa política que transborda para os tribunais e para as manchetes policiais. A questão que fica para o eleitor baiano é distinguir onde termina a apuração de um fato e onde começa a instrumentalização da Justiça para fins eleitorais.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





