O governo federal iniciou uma articulação direta com a cúpula do setor sucroenergético para definir o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%. A reunião, realizada no Palácio do Planalto, contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do vice-presidente Geraldo Alckmin e de seis ministros, além de lideranças das maiores empresas do setor. O movimento é visto como uma tentativa de conciliar a necessidade de controle inflacionário com o escoamento de uma produção recorde.

A estratégia do governo baseia-se na substituição de cerca de 1 bilhão de litros de gasolina anualmente pelo biocombustível. Com a alta do petróleo no mercado internacional devido a tensões geopolíticas, o aumento da mistura surge como uma alavanca para mitigar o impacto nos preços domésticos dos combustíveis. Para os produtores, a medida é um alívio necessário para lidar com a crescente oferta, impulsionada pela expansão do etanol de milho no Centro-Oeste e pela produtividade nas usinas de cana tradicionais.

Dinâmica da oferta e controle de preços

O Brasil produz atualmente 36,8 bilhões de litros de etanol, enquanto o consumo doméstico gira em torno de 33 bilhões. Este excedente, que deve se aproximar de 4 bilhões de litros até 2026, pressiona as margens dos produtores para baixo. A elevação da mistura para 32% (E32) funciona, portanto, como um mecanismo de regulação de mercado que absorve o excesso de oferta, estabilizando os preços internos e garantindo previsibilidade para os investimentos bilionários em novas plantas de processamento de milho.

A decisão final sobre o aumento da mistura deve ocorrer na próxima reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), prevista para a segunda quinzena deste mês. O governo avalia que a medida não apenas favorece a balança comercial, mas também reforça a posição do país na transição energética, consolidando o etanol como pilar central da matriz de transportes brasileira.

Tensões comerciais com os Estados Unidos

Além da mistura, o encontro abordou a recente imposição de tarifas de 25% pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, com uma sobretaxa adicional de 12,5% planejada para julho. O governo americano justifica a medida alegando uma taxação desleal sobre o etanol importado do país. A disputa coloca o Brasil em uma posição delicada, onde o setor sucroenergético precisa articular uma defesa comercial sem comprometer as exportações de açúcar.

Produtores das regiões Norte e Nordeste manifestaram preocupação com o uso das cotas preferenciais de açúcar como moeda de troca. Atualmente, os Estados Unidos importam 155,9 mil toneladas de açúcar brasileiro sem tarifas, volume essencial para a viabilidade de usinas locais. Qualquer alteração nesse regime tarifário, em retaliação à disputa do etanol, poderia desestabilizar economias regionais que dependem diretamente desse acesso facilitado ao mercado norte-americano.

Implicações para o ecossistema sucroenergético

A articulação entre o Planalto e os executivos de empresas como Cosan, Copersucar e Inpasa reflete a importância estratégica do setor para a economia brasileira. A capacidade de influenciar políticas públicas de energia, enquanto se navega em um cenário de protecionismo internacional, define a competitividade das usinas. O governo busca, simultaneamente, manter a estabilidade dos preços ao consumidor final e proteger a indústria contra a volatilidade externa.

Para os reguladores, o desafio é equilibrar a meta de descarbonização com a viabilidade econômica do setor. A possível adoção do E32 é um teste para a infraestrutura de distribuição e para a aceitação técnica do produto. Enquanto isso, o setor observa com cautela a postura da administração Trump, que sinaliza um endurecimento das políticas comerciais que afetam diretamente a pauta exportadora de commodities brasileiras.

Perspectivas e incertezas no horizonte

O resultado das negociações com Washington permanece como a maior incerteza para os próximos meses. A eficácia da diplomacia brasileira em reverter ou mitigar as tarifas dependerá da capacidade de demonstrar a reciprocidade no comércio de biocombustíveis. A questão da escala 6x1, embora periférica, também sinaliza que o setor está sob pressão em múltiplas frentes, incluindo a agenda trabalhista.

O mercado aguarda agora a definição do CNPE para ajustar suas projeções de produção e exportação para o segundo semestre. A transição para o E32, se confirmada, marcará um novo patamar na política energética nacional, consolidando o papel do etanol como combustível de transição estratégica. Acompanhar a evolução dessa agenda é essencial para compreender os próximos passos da política industrial brasileira.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times