O setor hoteleiro, em constante ebulição, vive um debate perene sobre o modelo de negócios ideal: focar na gestão de propriedades alheias ou manter um portfólio próprio de ativos? Gabriel Escarrer, presidente e CEO da Meliá Hotels International, posiciona-se firmemente a favor da integração, defendendo que a propriedade seletiva de ativos estratégicos e a gestão hoteleira não são antagônicas, mas sim complementares.
Em uma reflexão publicada em sua conta no LinkedIn, Escarrer argumentou que o crescimento hoteleiro não se resume apenas à incorporação de novas unidades. Ele enfatiza a importância de identificar e investir em ativos com valor estratégico diferencial, buscando fórmulas que maximizem seu potencial em colaboração com parceiros. A visão de Escarrer é clara: a solidez patrimonial advinda da propriedade estratégica, quando aliada à expertise em gestão, cria um ciclo virtuoso de crescimento e valorização a longo prazo.
A Força da Propriedade Estratégica
Escarrer exemplifica sua tese com investimentos recentes da Meliá. A renovação do Paradisus Cancún, que demandou um aporte de 50 milhões de euros, é citada como um caso paradigmático. A decisão de investir em um ativo com localização histórica e estratégica, herdada da visão de seu pai, visa não apenas preservar um legado, mas também adaptar a propriedade às expectativas contemporâneas dos viajantes. Da mesma forma, outros 40 milhões de euros estão sendo destinados à renovação do Hotel Don Pepe Gran Meliá, em Marbella. A perda desses hotéis, segundo o executivo, significaria renunciar a um posicionamento de mercado chave e a um retorno financeiro sustentado.
A renovação e o reposicionamento de ativos são amplamente apontados por analistas do setor como as principais alavancas para a criação de valor na hotelaria. A propriedade de um hotel, para Escarrer, transcende o mero ativo imobiliário: ele pode ser a mais pura expressão da identidade e da experiência de marca que a Meliá deseja oferecer, como no caso do ME London, que serve de vitrine para a marca ME by Meliá. Essa estratégia ganha ainda mais relevância com o foco crescente da Meliá nos segmentos Premium e de Luxo.
Gestão como Motor de Expansão
Paralelamente à valorização da propriedade, Escarrer reitera o papel crucial da gestão como motor de expansão. Este modelo permite à Meliá expandir sua presença internacional e desenvolver suas marcas sem a necessidade de assumir, em todos os casos, o ônus do investimento imobiliário. Em operações específicas, o grupo adota joint ventures com parceiros, compartilhando tanto as oportunidades quanto os riscos inerentes aos empreendimentos. Essa flexibilidade é fundamental para navegar em um mercado dinâmico e competitivo.
A estratégia da Meliá, sob a liderança de Escarrer, não se limita à otimização de ativos individuais. Ela se insere em uma visão mais ampla de contribuição para o desenvolvimento dos destinos turísticos. A aposta histórica em Cancún, por exemplo, não foi apenas na escolha de uma localização, mas um investimento no próprio destino e nas pessoas que o construiriam em parceria com a empresa. Essa perspectiva holística diferencia a mera posse de ativos da sua conversão em fontes de valor duradouro.
Implicações para o Mercado Brasileiro
No contexto brasileiro, onde o setor hoteleiro também busca modelos de crescimento sustentável e resiliência, a abordagem da Meliá oferece lições importantes. A combinação de investimento em propriedades com forte potencial de marca e localização com uma gestão eficiente pode ser um caminho para empresas locais que buscam se consolidar e expandir. A flexibilidade para formar parcerias e o foco na experiência do hóspede, alinhados às tendências globais de valorização de ativos estratégicos, podem ser diferenciais competitivos cruciais.
Perguntas em Aberto
A estratégia de Escarrer levanta questões sobre o equilíbrio ideal entre propriedade e gestão em diferentes mercados e segmentos. Qual o limite para a alavancagem financeira em aquisições e renovações? Como a Meliá pretende gerenciar a diversidade de modelos de negócio em seu portfólio global, especialmente em mercados emergentes? A capacidade de adaptação a novas demandas de sustentabilidade e tecnologia também será crucial para a manutenção do valor dos ativos a longo prazo. Observar como a Meliá continuará a refinar essa combinação será fundamental para entender o futuro do setor hoteleiro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





