O ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, distribuiu a pessoas próximas uma mensagem em que afirma ter sido avisado de “represálias” e “ataques” que se seguiriam à sua decisão de dar publicidade a um relatório da Polícia Federal. O documento, que menciona o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, tornou-se o estopim da mais recente e aguda crise na Corte.

O movimento de Mendonça, que segundo o jornal Poder360 foi justificado com uma citação a Schopenhauer sobre ataques pessoais, não é um ato isolado. Ele se insere em uma escalada de tensão que levou ao cancelamento de uma sessão que analisaria uma investigação contra o próprio Mendonça e à interrupção de outra, sobre Moraes, em meio a um ambiente de hostilidade explícita entre os pares. A leitura é que o Judiciário assiste a uma implosão de sua instância máxima.

O cálculo por trás do confronto

Ao se antecipar a “ataques pessoais”, Mendonça tenta enquadrar a narrativa: ele seria o alvo por ousar desafiar o status quo. É uma estratégia política clássica, que busca transformar uma apuração controversa em uma cruzada por transparência, posicionando-se como uma vítima do sistema que ele mesmo integra. Contudo, a reação de seus colegas sugere que a jogada foi percebida de forma bem diferente dentro do tribunal.

A acusação de Gilmar Mendes, que chamou o colega de “boneco de campanha” e “pixuleco eleitoral”, é demolidora. Ela retira qualquer verniz de nobreza do ato e o enquadra como uma manobra com fins políticos. A percepção de que um ministro estaria usando o cargo e informações sensíveis para uma disputa de poder interna ou externa corrói a imagem de colegialidade e imparcialidade que, ao menos em tese, deveria reger a Corte.

Uma instituição sob estresse

A consequência imediata é a paralisia. A suspensão de sessões cruciais por falta de consenso ou pelo excesso de animosidade demonstra um tribunal incapaz de regular a si mesmo. Quando os guardiões da Constituição se veem publicamente em conflito, com trocas de ofensas e acusações de abuso de autoridade, a legitimidade de toda a instituição fica comprometida perante a sociedade.

Essa fratura exposta ocorre em um momento em que o STF já se encontra sob intenso escrutínio e pressão política. A crise interna, portanto, não apenas fragiliza o tribunal em suas próprias deliberações, mas também fornece farta munição para seus críticos externos, que há muito questionam o que chamam de ativismo judicial e excesso de poder da Corte.

O episódio deixa um rastro de incertezas. Se a intenção era expor um problema, o resultado foi aprofundar a desconfiança. Independentemente das motivações de Mendonça, o dano à coesão e à imagem pública do Supremo já está feito, e a conta recai sobre a estabilidade de um dos pilares da República.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney