Em 2 de outubro de 2018, uma janela de 130 quilos despencou 90 metros do penthouse do edifício The Corniche, em Londres. Na calçada, Mick Ferris, um motorista de 53 anos, foi atingido e morto instantaneamente. O painel de vidro, parte de um projeto de apartamentos de luxo recém-concluído, tornou-se um projétil. A tragédia deu início a um processo criminal de cinco semanas para responder a uma pergunta fundamental: quando o design se torna uma arma, de quem é a culpa?
A resposta do tribunal foi cirúrgica. O júri absolveu o escritório de arquitetura Foster + Partners, autor do projeto, e a consultoria de engenharia Wintech. A responsabilidade penal recaiu sobre o gestor do projeto, St James Group, e sobre o empreiteiro, Lindner Prater, por falharem em seu dever de garantir a segurança pública. A decisão traça uma linha no chão, separando o conceito visual da execução técnica, mas deixa no ar uma questão incômoda sobre a responsabilidade moral e profissional em uma indústria cada vez mais fragmentada.
A linha tênue do projeto
A defesa do Foster + Partners se apoiou em um argumento central: seu papel era restrito aos “aspectos visuais” do design, não às questões técnicas. Para a promotoria, a tese era frágil. Argumentou-se que um escritório com a especialidade do Foster + Partners em edifícios envidraçados deveria estar ciente dos riscos de janelas que abrem para fora, especialmente após um incidente idêntico ter ocorrido no mesmo prédio um ano antes, sem que nenhuma alteração fosse feita. O promotor Gordon Menzies foi direto: não era “um acidente esperando para acontecer”, mas “um acidente esperando para acontecer de novo”.
O caso expõe uma tensão inerente aos grandes projetos contemporâneos. A dissociação entre o arquiteto-estrela, que assina a estética, e a cadeia de engenheiros, gestores e fornecedores que a materializam, cria zonas cinzentas de responsabilidade. Quando uma decisão de design — neste caso, alterar janelas que abririam para dentro para que abrissem para fora, a fim de não interferir com a infraestrutura interna — tem consequências fatais, a quem cabe a palavra final sobre a segurança? O veredito sugere que a responsabilidade recai sobre quem executa, não sobre quem concebe a visão original.
A culpa em cascata
O detalhe técnico que levou à falha foi um restritor de metal, projetado para impedir que a janela fosse arrancada por ventos fortes, que havia sido removido. A promotoria descreveu o sistema como carente de um “mecanismo de segurança eficaz”. A mudança no projeto das janelas, de abertura interna para externa, foi o gatilho que introduziu um risco catastrófico que, aparentemente, ninguém na cadeia de comando conseguiu ou quis mitigar de forma definitiva, mesmo após o primeiro alerta.
O julgamento, portanto, não é apenas sobre um acidente, mas sobre um sistema. Ele ilustra como decisões tomadas em silos — uma para resolver um problema de espaço interno, outra para executar a instalação — podem culminar em desastre quando a visão holística da segurança se perde. A absolvição do designer e a condenação do construtor e do gerente de projeto enviam um sinal claro ao mercado: a responsabilidade final pela segurança da obra está na ponta da execução, e não na prancheta do arquiteto.
Após a morte de Ferris, as janelas do The Corniche foram alteradas para abrir para dentro, como no projeto original. A correção foi feita, mas a pergunta que fica é por que foi preciso uma vida perdida para que a solução mais segura fosse implementada. O tribunal atribuiu a culpa legal, mas a indústria da arquitetura e construção civil ainda precisa encarar a responsabilidade ética de um sistema que permitiu que um erro tão previsível acontecesse duas vezes.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen Architecture





