Na comunidade de design, uma nova tese ganha força: com a inteligência artificial assumindo a execução técnica, o "bom gosto" se tornará o principal diferencial dos profissionais. A ideia é que, enquanto a máquina produz, a capacidade humana de curadoria, seleção e refinamento estético será o ativo mais valioso. O argumento parece lógico, mas pode ser uma armadilha.

Uma análise publicada pela Fast Company desafia essa narrativa, tratando-a como um refúgio conveniente e perigoso. A aposta no gosto como a última trincheira do designer pode ser menos uma estratégia de futuro e mais um sintoma de uma indústria que busca proteger seu senso de valor, em vez de se forçar a evoluir de fato diante de uma mudança tecnológica estrutural.

A conveniência do conhecido

O sentimento de ameaça não é novo para os designers. A cada onda tecnológica, um novo "vilão" surge para supostamente destruir a profissão. O artigo lembra que o Fiverr, depois o Canva e as próprias redes sociais já ocuparam esse papel. Em cada um desses ciclos, a reação foi buscar um território seguro, uma habilidade que a tecnologia, em tese, não poderia alcançar.

Hoje, essa ilha de segurança é o "bom gosto". A crítica é que há uma enorme conveniência em acreditar que a habilidade que salvará a todos é justamente aquela que os profissionais já passaram a carreira inteira desenvolvendo. É uma narrativa que conforta e valida o status quo, dispensando a necessidade de aprender, desaprender e se reinventar. O risco é que essa zona de conforto se transforme em estagnação, mascarando o medo da obsolescência.

Gosto não é ação

O problema fundamental da tese, segundo a análise, é que o gosto é inerentemente passivo. Ter bom gosto não significa criar, executar ou gerar valor. Inúmeras pessoas sabem reconhecer o que é bom, mas não contribuem com nada novo para a cultura ou para o mercado. Como diz o autor, elas "não fizeram nada a respeito".

A aposta exclusiva no gosto arrisca transformar designers em meros curadores ou críticos, enquanto a capacidade de fazer é cada vez mais democratizada pela IA. A provocação é que a diferenciação real não estará em apenas reconhecer o bom, mas em direcionar a tecnologia para criar algo inédito, resolver problemas complexos ou construir sistemas — habilidades que vão muito além da estética passiva.

A questão, portanto, não é descartar o bom gosto, mas entender suas limitações. Em um futuro onde a execução é abundante e barata, a pergunta que fica no ar não é se o gosto ainda importa, mas o que os designers farão com ele. Apenas sentir não será suficiente; será preciso agir, construir e, acima de tudo, evoluir junto com as ferramentas que remodelam o campo de jogo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company