A Science Corporation, startup californiana fundada por Max Hodak, ex-presidente e cofundador da Neuralink, obteve a cobiçada marcação CE, que autoriza a comercialização de seu sistema de visão biônica, o Prima, no mercado europeu. O dispositivo mira a degeneração macular seca associada à idade, uma das principais causas de cegueira irreversível em idosos, que afeta quase 200 milhões de pessoas globalmente.

O movimento é mais do que um marco regulatório para uma nova tecnologia médica. Ele representa um passo calculado de um veterano do setor de interfaces cérebro-computador, que agora aposta em uma abordagem mais focada e com um caminho mais claro para o mercado. A aprovação do Prima não apenas valida duas décadas de pesquisa acadêmica, mas testa a viabilidade comercial de uma tecnologia de altíssimo custo em um campo onde as promessas frequentemente superam os resultados práticos.

A aposta pós-Neuralink

O sistema Prima combina um microchip fotovoltaico de 2x2 milímetros, implantado sob a retina, com um par de óculos inteligentes. Uma câmera nos óculos capta o ambiente e projeta as imagens via luz infravermelha no chip, que converte os sinais luminosos em impulsos elétricos, estimulando as células nervosas e substituindo a função dos fotorreceptores danificados. A tecnologia, desenvolvida ao longo de 20 anos por pesquisadores como Daniel Palanker, de Stanford, foi adquirida por Hodak por cerca de quatro milhões de euros da francesa Pixium Vision, que estava à beira da falência — uma aquisição estratégica feita pouco antes da publicação dos resultados clínicos que agora sustentam o produto.

A trajetória de Hodak sugere uma lição aprendida. Após deixar a Neuralink em 2021, sua nova empreitada parece mais pragmática. Em vez de buscar a interface cerebral definitiva, a Science Corporation ataca um problema específico com uma solução que já demonstrou eficácia em ensaios clínicos. Dos 32 participantes do estudo, 27 voltaram a ler, com alguns conseguindo até mesmo terminar livros de 300 páginas, um feito descrito como "sem precedentes" por um dos cientistas envolvidos.

Entre o milagre e o mercado

O impacto na vida dos pacientes é inegável, mas as limitações persistem. A visão restaurada é, por enquanto, em preto e branco, sem escala de cinzas, o que dificulta o reconhecimento de rostos. O custo, estimado em "várias centenas de milhares de dólares" por dispositivo, é uma barreira formidável, e a empresa já negocia modelos de reembolso com sistemas de saúde europeus. Além disso, a ausência de um grupo de controle no ensaio clínico levanta questões sobre a magnitude real do efeito, embora o salto qualitativo em relação a tecnologias anteriores seja claro.

Para Hodak, o desafio é tanto científico quanto empresarial. Ele declarou que o setor precisa de uma empresa que fature US$ 100 milhões por ano para se tornar sustentável e evitar um "inverno" de investimentos. A estratégia é construir um negócio sólido enquanto se desenvolvem tecnologias de longo prazo. O lançamento comercial, previsto para setembro na Alemanha, será o primeiro teste real dessa tese. A aprovação da FDA nos EUA, que concedeu ao Prima uma designação de "dispositivo inovador", pode acelerar sua chegada ao maior mercado de saúde do mundo.

A jornada do Prima, da academia à beira da falência e agora ao mercado europeu, ilustra a complexa dança entre inovação, capital e regulação. O sucesso da Science Corporation dependerá não apenas de refinar a tecnologia para oferecer visão em cores ou maior resolução, mas de provar que milagres biomédicos podem se transformar em negócios perenes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech