Em análise recente publicada pelo @worldeconomicforum, o economista e vencedor do Prêmio Nobel Peter Howitt enquadra a atual onda de inteligência artificial como a introdução de uma nova "tecnologia de propósito geral". Ele argumenta que, embora essas inovações possuam um potencial colossal para gerar riqueza e criar novas ocupações, seu impacto inicial e mais evidente é intrinsecamente destrutivo. Segundo Howitt, a chegada dessas tecnologias inevitavelmente substitui sistemas anteriores, leva empresas à falência e desvaloriza de forma abrupta o capital humano daqueles cujas habilidades se tornam redundantes. O economista aponta que os efeitos criativos que abrem novas possibilidades para a sociedade permanecem obscuros no curto prazo, pois dependem fundamentalmente do que ele classifica como inovações subsequentes (downstream innovations).

O paradoxo da produtividade e o custo da resistência

Um dos fenômenos centrais destacados por Howitt na adoção de tecnologias de propósito geral é o comportamento contra-intuitivo da eficiência econômica inicial. Ele observa que, quando uma tecnologia dessa magnitude emerge, a economia atravessa um período em que a produtividade parece efetivamente desacelerar, em vez de aumentar. Essa defasagem temporal entre a disrupção e o ganho real de eficiência cria um ambiente propício para a rejeição social e institucional.

A resposta a esse atrito determina a trajetória de longo prazo das nações. Howitt alerta que a história demonstra que a oposição contra novas tecnologias pode ser bem-sucedida em bloqueá-las temporariamente. Nesses casos, os países que optam por lutar contra o progresso tecnológico podem até experimentar um alívio no curto prazo, preservando o status quo. No entanto, o economista é categórico ao afirmar que essas nações acabam ficando para trás, entrando em um ciclo de declínio no longo prazo ao rejeitarem a modernização imposta pela inovação.

A reabilitação da política industrial

Para mitigar o choque da transição e evitar a estagnação, Howitt defende uma abordagem que frequentemente encontra resistência no meio acadêmico: a adoção de políticas industriais. O Nobel reconhece que muitos economistas fogem do termo, preferindo que as forças de mercado dominem o processo de adaptação de forma irrestrita. Contudo, ele argumenta que o histórico econômico global prova o contrário. Mesmo nas economias onde os mercados são considerados os mais livres, a política industrial desempenhou um papel imenso no desenvolvimento e na acomodação de novas tecnologias estruturais.

Como referência prática de gestão dessa transição, Howitt aponta para a Dinamarca. Ele cita estudos demonstrando que os trabalhadores dinamarqueses são, em diversos aspectos, significativamente menos temerosos quanto às consequências das novas tecnologias em comparação com a força de trabalho de outros países. Para o economista, essa mitigação do medo diante da obsolescência torna o país um excelente modelo a ser seguido globalmente.

A leitura de Howitt sugere que a disrupção tecnológica não é um processo que se resolve de forma indolor apenas pela via do livre mercado. Para contexto, a análise editorial reconhece que o modelo dinamarquês citado no vídeo se apoia historicamente em redes robustas de segurança social que protegem a renda do trabalhador na transição, e não a manutenção de um emprego obsoleto específico. O desafio imposto pelo atual ciclo de destruição criativa é como replicar essa absorção de impacto estrutural em economias globais que não possuem a mesma margem fiscal ou coesão institucional para financiar a modernização.

Source · @worldeconomicforum