Maury Dean começou a correr em 1972, aos 29 anos, inspirado pela vitória do americano Frank Shorter na maratona olímpica. Hoje, aos 83, ele continua a correr quase todos os dias. Dean, que completou 14 maratonas, personifica uma tendência crescente: atletas que se recusam a pendurar os tênis, adaptando-se para fazer da corrida um esporte para a vida toda. A questão, no entanto, não é como parar o tempo, mas como negociar com ele.
Segundo uma reportagem da publicação americana Outside Online, a resposta para a longevidade no esporte não está em mais esforço, mas em um esforço mais inteligente. A desaceleração com a idade é inevitável — pesquisadores estimam uma perda de 1% a 3% no desempenho por ano a partir dos 40 anos. A tese, porém, é que essa curva pode ser gerenciada. Para corredores veteranos, a estratégia mudou do acúmulo de quilometragem para uma abordagem que prioriza a sustentabilidade do corpo.
A ciência da desaceleração inteligente
O mantra de que “mais é melhor” perde validade com o passar das décadas. Um estudo de 2022, publicado no International Journal of Sports Physical Therapy, analisou os hábitos de 68 corredoras competitivas entre 45 e 60 anos. Os pesquisadores descobriram que a maioria corria em média três dias por semana, totalizando entre 24 e 48 quilômetros semanais. O dado mais revelador: 97% delas praticavam alguma forma de treino complementar (cross-training), principalmente musculação, de duas a três vezes por semana.
Essa abordagem, que o cientista do exercício Jason Karp chama de “menos é mais”, é fundamental. “Quando jovem, você consegue correr seis ou sete dias por semana”, afirma Karp na reportagem. “Mas provavelmente não conseguirá fazer isso por toda a vida”. O foco se desloca para o fortalecimento muscular, que protege as articulações e melhora a eficiência da corrida, e para a inclusão de atividades de baixo impacto, como ciclismo ou elíptico, que mantêm o condicionamento cardiovascular sem o desgaste do asfalto.
Do cronômetro à gratidão
A mudança não é apenas física, mas também mental. Para muitos, o objetivo deixa de ser a quebra de recordes pessoais e passa a ser a capacidade de continuar correndo sem dor. Mike Keohane, um corredor de 61 anos que chegou a disputar a seletiva olímpica americana para a maratona, vivia um ciclo de lesões. A solução foi cortar drasticamente sua rodagem semanal e intensificar o trabalho na academia. “Pela primeira vez em mais de dez anos, estou correndo sem dor”, relata.
A transição envolve uma redefinição do que significa sucesso. Gordon Bakoulis, treinadora e veterana de cinco seletivas olímpicas, sugere uma “atitude de gratidão”. O foco se volta para o privilégio de manter a saúde e a capacidade de estar em movimento. Isso não significa, contudo, abandonar por completo a intensidade. Karp recomenda a incorporação de treinos curtos e rápidos, como o Fartlek, para recrutar fibras musculares de contração rápida e ajudar a manter a densidade óssea, um fator crítico no envelhecimento.
No fim, a longevidade parece residir em uma nova perspectiva. Eileen Barnes Corley, de 67 anos, uma das pioneiras da equipe de cross-country da Fordham University, resume a mudança. “Eu costumava pensar: ‘tenho que fazer a corrida, sem parar’”, conta. “Agora, eu penso: ‘Oh, há uma cachoeira. Vamos parar por um minuto e apreciar a vista’”. A corrida deixa de ser uma batalha contra o relógio e se torna uma plataforma para a experiência — uma jornada mais longa, justamente por ser mais consciente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Outside Online





