Uma sessão turbulenta no Supremo Tribunal Federal (STF), que deveria decidir sobre a abertura de uma investigação contra o ministro Alexandre de Moraes, terminou sem um veredito. O julgamento foi suspenso após um pedido de vista do ministro Flávio Dino, mas o resultado político foi imediato e claro: a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) encontrou o material que precisava para afiar sua principal linha de ataque contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Para os estrategistas do PL, o adiamento e, principalmente, as duras trocas de acusações entre os ministros em plenário, servem a um propósito calculado. A tese, que já vinha sendo construída, é a de associar o Palácio do Planalto ao que a campanha classifica como um “sistema” deteriorado, do qual o STF seria parte central. O episódio desta semana, segundo reportagem do InfoMoney, forneceu a munição para transformar essa narrativa em um dos eixos da reta final da eleição.

A tática do ataque seletivo

A estratégia desenhada no comitê de Flávio Bolsonaro é cirúrgica. A orientação é evitar um confronto direto com o STF como instituição — um erro que marcou o governo de seu pai —, e, em vez disso, concentrar fogo em alvos específicos: os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino. A narrativa é simples e de fácil digestão para sua base: Dino, indicado por Lula, agiu para “blindar” Moraes, interrompendo um julgamento que poderia constranger um dos principais adversários do bolsonarismo.

A campanha busca, com isso, criar uma ponte direta entre o desgaste de Moraes e a imagem de Lula. A frase “quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes”, dita por Flávio, resume a aposta. O movimento transforma um complexo debate processual interno do Supremo em uma peça de propaganda eleitoral, explorando a percepção de que há uma proteção mútua entre o Executivo e parte do Judiciário.

O plenário como palco

Além do adiamento em si, a campanha de Flávio capitaliza sobre o espetáculo da divisão interna do tribunal. As acusações trocadas entre Gilmar Mendes e André Mendonça, e entre o próprio Moraes e Mendonça, foram transmitidas ao vivo e expuseram fraturas profundas na Corte. Para os aliados de Flávio, a cena reforça o discurso de que há uma resistência corporativista em investigar um de seus próprios membros.

Esse argumento é então justaposto à celeridade com que o STF julgou e condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros envolvidos na tentativa de golpe. A campanha explora essa assimetria para vender a ideia de um tribunal de “dois pesos e duas medidas”. Trata-se de uma comparação estritamente política, que ignora as diferenças processuais entre os casos, mas que possui forte apelo junto ao eleitorado que já desconfia das instituições.

A aposta de Flávio Bolsonaro é que a crise no STF pode ser mais decisiva para o resultado da eleição do que os próprios planos de governo. A estratégia transforma o Supremo no principal campo de batalha e testa a capacidade da campanha de convencer o eleitor de que a disputa real não é apenas pelo Planalto, mas pelo controle do “sistema” como um todo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney