O mercado financeiro brasileiro enfrenta um ajuste estrutural importante após a publicação, pelo Ministério do Trabalho, de uma portaria que viabiliza o uso de verbas rescisórias e saldo do FGTS como garantia para operações de crédito consignado privado. A medida, celebrada em cerimônia com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, estabelece um teto de juros de 1,99% ao mês para a modalidade, desenhada para ampliar o acesso ao crédito para trabalhadores do setor privado com maior segurança para as instituições financeiras.

Segundo relatório assinado pelos analistas Thiago Batista e Beatriz Shinye, do UBS BB, o impacto direto dessa regulação será uma compressão significativa das margens bancárias. A estimativa é que a rentabilidade do produto caia para cerca de 18%, comparada aos 40% observados no modelo anterior, onde as taxas de juros eram substancialmente mais elevadas para compensar o risco de crédito.

Dinâmica de risco e retorno

A tese do UBS BB baseia-se na premissa de que a robustez das garantias — especificamente o saldo do FGTS — justifica a redução do teto de juros, uma vez que o risco de inadimplência tende a diminuir. Para o modelo anterior, os analistas consideravam uma taxa de juros de 3,8% ao mês, com perdas estimadas em 15%. Já para o novo formato, a projeção assume juros de 1,99% e perdas reduzidas para 2,0%.

Embora a qualidade da garantia melhore, a equipe aponta que o nível real de inadimplência permanece uma incógnita. A expectativa é que as métricas de perda convirjam, ao longo do tempo, para patamares próximos aos observados em consignados de servidores públicos e aposentados, que giram entre 2,0% e 2,5%. A incerteza sobre essa convergência é o principal fator de cautela para as instituições que pretendem explorar o novo nicho.

Impacto competitivo e tecnologia

A implementação da plataforma CTPS como ferramenta central de comparação de ofertas introduz um novo elemento de competitividade. Ao permitir que o cliente visualize ofertas de diversos players, o governo força uma maior transparência, o que deve pressionar as taxas de juros de mercado como um todo. A dúvida que resta é se todos os grandes bancos e fintechs adotarão a plataforma como canal prioritário ou se buscarão estratégias paralelas.

Para o UBS BB, bancos que já adotam uma postura mais conservadora, como o Nu e as instituições incumbentes, tendem a se beneficiar desse ambiente mais regulado. A redução da volatilidade nas perdas de crédito pode, no longo prazo, oferecer uma base mais previsível para a expansão da carteira de crédito voltada a esse público.

Perspectivas para o ecossistema

O mercado agora observa a velocidade com que os bancos ajustarão seus sistemas para integrar o novo modelo. A eficácia dos mecanismos de portabilidade será determinante para medir o sucesso da medida, especialmente se a concorrência for estimulada pela facilidade de transição entre credores. O papel dos reguladores será monitorar se o teto de 1,99% é sustentável para todos os perfis de risco ou se haverá uma seleção adversa na concessão de crédito.

Para o investidor, o cenário exige atenção aos balanços. A redução da rentabilidade marginal não significa necessariamente uma perda de valor, mas uma mudança na natureza do risco. A capacidade dos bancos em manter custos operacionais sob controle será o diferencial para manter a atratividade do produto, mesmo com margens mais estreitas.

O novo consignado privado marca uma tentativa governamental de baratear o custo do dinheiro para o trabalhador, utilizando o FGTS como lastro. A transição para esse modelo, entretanto, redefine as expectativas de lucro para o setor financeiro, que precisará equilibrar volume e eficiência operacional em um ambiente de taxas limitadas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times