A sensação de exaustão no meio da tarde, frequentemente atribuída à má qualidade do sono noturno, pode ter uma explicação fisiológica distinta. A ciência aponta que ignoramos os ritmos ultradianos, um relógio biológico que dita nossos níveis de energia e alerta ao longo das 24 horas do dia. Enquanto o ritmo circadiano regula o ciclo de sono e vigília em relação à luz, os ritmos ultradianos operam em intervalos muito mais curtos e frequentes, fundamentais para a regulação hormonal e a performance cognitiva.

Segundo reportagem do Xataka, o entendimento desses ciclos permite uma gestão mais precisa da energia mental, indo além da simples contagem de horas dormidas. A tese central é que o cérebro não mantém uma capacidade de foco constante, mas oscila em ondas de alta atividade seguidas por períodos de recuperação necessários para a homeostase do organismo.

A origem dos ciclos de Kleitman

A base científica para essa compreensão remonta à década de 1950, com os estudos de Nathaniel Kleitman, pioneiro na descoberta do sono REM. Durante suas pesquisas, Kleitman observou que o sono humano não é um estado uniforme, mas segmentado em ciclos que duram entre 90 e 120 minutos. Cada ciclo percorre estágios de sono leve, profundo e REM, reiniciando o processo sucessivamente.

A grande virada teórica ocorreu quando Kleitman postulou o Ciclo Básico de Repouso-Atividade (BRAC, na sigla em inglês). A hipótese sugere que esse relógio biológico de 90 minutos não cessa ao acordarmos. Pelo contrário, ele continua a ditar o ritmo de operação do cérebro durante o dia, alternando picos de concentração com vales de fadiga.

O mecanismo da bateria cerebral

A operação desses ritmos está intrinsecamente ligada à secreção hormonal. O corpo não libera hormônios de forma contínua, mas em pulsos sincronizados com esses ciclos de 90 minutos. O hormônio do crescimento, por exemplo, essencial para a reparação tecidual, tem seu pico máximo de secreção atrelado às fases de sono profundo dos primeiros ciclos ultradianos da noite. Interrupções nesses momentos iniciais comprometem a capacidade de restauração do organismo.

Durante o dia, esse mecanismo se traduz na necessidade de gerenciar a energia como uma bateria. Após aproximadamente 90 minutos de alta demanda cognitiva, o cérebro entra em um vale de fadiga de cerca de 20 minutos. Ignorar esse sinal de exaustão e forçar a continuidade do trabalho resulta em uma queda significativa na eficiência, dado que o corpo exige um reset fisiológico para retomar o próximo ciclo de alta performance.

Implicações para o ambiente de trabalho

A aplicação prática desses conceitos sugere uma mudança na forma como estruturamos a jornada de trabalho. A adoção da regra 90/20 — trabalhar em blocos de 90 minutos seguidos por 20 minutos de pausa real, longe de telas — alinha-se à biologia do Ciclo BRAC. Para gestores e profissionais, essa abordagem desafia a cultura de produtividade ininterrupta, sugerindo que pausas não são perda de tempo, mas um requisito para a manutenção da acuidade mental.

Além do trabalho, o despertar também é afetado por esses ritmos. Acordar em meio a uma fase de sono profundo, muitas vezes por causa de alarmes mal cronometrados, explica a sensação de inércia matinal. Calcular o sono em blocos de 90 minutos aumenta a probabilidade de despertar ao final de um ciclo, o que, em teoria, facilita o início do dia com maior disposição.

O futuro da gestão do bem-estar

Embora a ciência dos ritmos ultradianos ofereça um mapa para otimizar o desempenho, a aplicação individual permanece um desafio em um mundo focado em interrupções constantes. A incerteza reside em como as variações individuais na duração desses ciclos podem impactar a eficácia de regras genéricas de produtividade.

Observar como o corpo responde a esses intervalos ao longo de uma semana de trabalho pode ser o primeiro passo para uma gestão de energia mais sustentável. A questão que permanece é se as organizações serão capazes de integrar esses ciclos biológicos em suas dinâmicas operacionais ou se a produtividade continuará a ser medida por métricas de tempo que ignoram nossa própria fisiologia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka