A startup argentina Wapi Firma, fundada pelos engenheiros Luis Lacoste, Nicolás Tzovanis e Darío Novara, desenvolveu uma solução que permite a assinatura legal de documentos diretamente pelo WhatsApp. Com um investimento inicial de 20 mil dólares, a empresa busca simplificar a formalização de acordos ao eliminar barreiras tecnológicas comuns, como a necessidade de gerenciar e-mails, senhas ou baixar aplicativos adicionais. A plataforma já registra um faturamento mensal superior a 30 mil dólares e expande suas operações para mercados como México e Espanha.

O modelo de negócio da Wapi Firma atende principalmente entidades financeiras, incluindo bancos, cooperativas e empresas de garantia de aluguel. A tese central da empresa é que a fricção tecnológica ainda impede a digitalização de milhões de transações, mantendo processos analógicos ineficientes. Segundo a empresa, a solução atinge uma taxa de assinatura de 97%, mesmo em perfis demográficos com menor familiaridade digital, como usuários acima de 70 anos.

A evolução da experiência do usuário no setor jurídico

Historicamente, o setor de assinaturas digitais foi dominado por plataformas que exigem o fluxo tradicional de e-mail, links de verificação e criação de contas. Embora ferramentas como DocuSign tenham consolidado o mercado corporativo, a Wapi Firma identifica uma lacuna em mercados onde a penetração do WhatsApp é quase universal e a familiaridade com o e-mail corporativo é menor. A transição para o ambiente de mensageria instantânea não é apenas uma mudança de interface, mas uma adaptação aos hábitos de consumo digital da América Latina.

O uso de inteligência artificial tem sido determinante para a escalabilidade da startup. Segundo os fundadores, a integração de ferramentas de IA, como o modelo Claude, permitiu otimizar o desenvolvimento de software e reduzir custos operacionais, dispensando serviços de design e acelerando ciclos de entrega que antes demandavam semanas. Essa agilidade operacional é o que permite à equipe de cinco pessoas manter uma estrutura enxuta enquanto atende clientes de grande porte, como o Banco de Corrientes.

Mecanismos de confiança e validade legal

O funcionamento da ferramenta baseia-se em um fluxo de verificação de identidade integrado ao chat. O remetente envia o documento, e o signatário realiza a validação mediante envio de foto do documento de identidade e uma selfie. Após a assinatura digital feita na tela do celular, o documento é processado com evidências de rastreabilidade. A empresa posiciona-se como um terceiro de confiança, embora reconheça limitações legais, como a impossibilidade de substituir a figura do tabelião em escrituras públicas que exigem fé pública presencial.

A estratégia de crescimento também inclui o lançamento do serviço WapIA, um bot que permite a qualquer pessoa gerar ou assinar documentos de forma gratuita via WhatsApp. Esse movimento sugere uma tentativa de capturar volume e popularizar a marca antes de uma possível consolidação ou aquisição estratégica no mercado de legaltech. Ao focar na simplicidade, a empresa contorna o problema do abandono de processos, onde a complexidade técnica costuma ser o principal fator de desistência.

Implicações para o mercado e concorrência

Para o ecossistema de tecnologia, a Wapi Firma exemplifica como a adaptação de serviços globais para a realidade infraestrutural local pode gerar vantagens competitivas. Enquanto grandes players globais mantêm fluxos padronizados, startups regionais ganham espaço ao integrar-se aos canais de comunicação dominantes. A tensão aqui reside na segurança cibernética e na aceitação regulatória, uma vez que o WhatsApp é uma plataforma de terceiros, o que exige que as empresas de tecnologia garantam a integridade dos dados e a conformidade com leis de proteção de dados pessoais.

Concorrentes tradicionais podem enfrentar desafios ao tentar replicar essa agilidade, pois a migração de fluxos complexos para interfaces de chat exige uma reestruturação profunda da experiência do usuário. Para o mercado brasileiro, que compartilha padrões de adoção de mensageria similares aos da Argentina, o caso levanta questões sobre como o setor jurídico local reagirá a essa desintermediação e se haverá pressão por uma regulamentação mais específica para assinaturas via mensageiros.

Desafios e perspectivas futuras

O futuro da Wapi Firma permanece condicionado à sua capacidade de manter a segurança jurídica à medida que escala para novos mercados. A transição de uma ferramenta de nicho financeiro para uma solução de uso geral dependerá de como os órgãos reguladores de diferentes países interpretarão a validade dessas assinaturas em disputas judiciais. Além disso, a dependência da infraestrutura da Meta, dona do WhatsApp, impõe um risco estrutural que qualquer empresa focada nesse canal precisa gerenciar.

O sucesso da startup até aqui demonstra que a inovação muitas vezes não reside em criar uma tecnologia inédita, mas em reduzir o atrito de tecnologias existentes. Acompanhar a evolução da taxa de adesão e a expansão para novos setores será fundamental para entender se o modelo de assinatura via chat se tornará um padrão de mercado ou permanecerá como uma solução complementar para públicos específicos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · La Nación — Tecnología